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Sérgio Machado – Educação musical como r...

Por Blog Acesso

 

Filho de músicos, o cineasta Sérgio Machado passou a infância entre partituras e instrumentos, brincando de ser maestro durante os ensaios da orquestra que os pais integravam. Essa memória afetiva parece ter potencializado a concepção cinematográfica de Tudo que aprendemos juntos, longa-metragem dirigido por Sérgio, que estreia no circuito nacional no próximo dia 3 de dezembro, já com o reconhecimento do público, que elegeu o filme como a “Melhor Ficção Brasileira” da  39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Quis fazer um filme que fosse sincero e que se comunicasse com um grande público”, conta o diretor.

(Leia também as matérias “Tudo que aprendemos juntos em Heliópolis” e “Tudo que aprendemos juntos é marcado pela força da música”, publicadas pelo Blog Acesso)

Confira, a seguir, a entrevista concedida por Sérgio Machado ao Blog Acesso.

Blog Acesso – Como surgiu a ideia de rodar o filme?

Sérgio Machado – A Gullane [produtora de conteúdo para cinema e televisão] me convidou a adaptar para o cinema a peça Acorda Brasil, escrita pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes, com liberdade criativa. O único ponto a considerar na realização do filme seria o foco da importância da educação como fator de transformação de um país.

 

Acesso – O que te atraiu no projeto?

S. M. – Aceitei conduzir o projeto por três motivos. Primeiro, porque sou filho de músicos – posso dizer que fui criado na orquestra, brincando de ser maestro –, então, foi uma forma de voltar à infância. Segundo, porque concordo com o ponto de vista do Antônio Ermírio de Moraes de que a educação é a chave para mudar o Brasil. Educação e acesso à cultura podem transformar completamente a nossa situação. E terceiro, porque essa era uma oportunidade de fazer um filme de grande envergadura, que falasse dos problemas, mas também das possibilidades, das soluções, que não tratasse o Brasil como um país fadado a dar errado.

 

Acesso – Como foi a preparação para a filmagem?

S. M. – O processo de pesquisa e de desenvolvimento do roteiro levou cerca de um ano. Neste período, conversei com os moradores de Heliópolis e passei um tempo no Instituto Baccarelli, fazendo aulas de violoncelo, o que me permitiu conviver com os meninos.

 

Acesso – Você tem uma história de vida relacionada com a música. Como essa experiência está inscrita no filme?

 S. M. – Nunca levei muito jeito para a coisa [música], mas desenvolvi bem o ouvido. Tem gente que fala que o filme avança como uma partitura musical. Uma coisa curiosa é que, depois da filmagem, virei pai de músico. Meu filho, que me acompanhou no set de filmagem, ficou encantado com a orquestra e quis aprender violino. Hoje, ele tem 11 anos e foi convidado a participar da Orquestra de Heliópolis.

 

Acesso – Em termos estruturais, de que maneira a música influenciou a concepção cinematográfica?

S. M. – Pensamos nos tempos musicais, no filme como uma composição musical, e escolhemos as músicas de acordo com o ritmo.

 

Acesso – Você conta que, na infância, brincou de reger orquestras imaginárias, nas ocasiões em que acompanhava seus pais aos ensaios. Tanto tempo depois, como foi dirigir as filmagens de uma orquestra?

S. M. – Pois é, nunca tinha vivido isso. Começamos filmando a orquestra formada pelos meninos que atuam no filme, e, depois, filmamos com a Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo]. Eles disponibilizaram um dia inteiro e rodamos todas as cenas na Sala São Paulo, com o recurso de cinco câmeras simultâneas.

 

Acesso – Os atores que integram a orquestra, no filme, já tinham intimidade com o universo musical?

S. M. – Não. Passamos um ano ensaiando com eles para que aprendessem a tocar o básico. Trabalhamos com meninos de comunidades e a maioria também não tinha experiência de atuação.

 

Acesso – E como foi o lançamento especial do filme em Heliópolis, no início de novembro?

S. M.  – Foi sensacional. Na verdade, tivemos duas sessões muito bacanas. A primeira, que aconteceu na Sala São Paulo, foi uma das sessões mais emocionantes que já vi na vida. Como boa parte do filme transcorre na Sala São Paulo, isso criou uma mágica grande, coroada pela entrada de uma orquestra real no fim da exibição. Depois, fizemos uma exibição em Heliópolis e, apesar da forte chuva, ninguém foi embora. Descobrimos que algumas pessoas nunca tinham ido ao cinema.

 

Acesso – Qual foi o critério definido para distribuir a música clássica e o rap no longa?

S. M.  – Não queria que houvesse uma hierarquia. Você vai na comunidade e encontra uma música pulsante, riquíssima. Para mim, era importante mostrar o que o personagem aprendia na comunidade e não só o que ele ensinava. Convidamos o Criolo, o Emicida e o Rappin’ Hood. Trabalhamos também com um rapper importante para a história de São Paulo, o Sabotage.

 

Acesso – Vocês orquestraram uma música do Sabotage, correto?

S. M.  – A música final é um rap do Sabotage, tocado pela Sinfônica de Heliópolis. O curioso é que descobrimos depois, por intermédio do filho do Sabotage, que um dos sonhos dele era ter uma música de sua autoria orquestrada.

 

Acesso –Tudo que aprendemos juntos” já está rodando festivais no Brasil e no exterior com ótima acolhida do público. O que você espera da carreira do filme?

S. M.  – Lá fora, essa carreira já está bem garantida. O filme rodou festivais e recebeu ótimas críticas. O mais difícil, na verdade, é vencer no país da gente. Mas o filme ganhou a  39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foi o mais votado pelo público como melhor filme e isso já é um bom começo.

 

Acesso – Qual foi o maior desafio de construção dessa narrativa?

S. M.  – Este foi o maior filme que rodei, com um alto valor de produção. Quis fazer um filme que fosse sincero e que se comunicasse com um grande público. Mas existe uma sofisticação narrativa muito grande.

 

Acesso – Para você, qual o papel de uma sinfônica como a de Heliópolis para a democratização do acesso à cultura?

S. M.  – Tenho uma sensação de que essa é a melhor maneira de alcançar avanços sociais evidentes no Brasil. Nos últimos anos, avançamos em várias direções, mas ainda falta avançar na oferta do acesso à cultura, à música, em massa. A orquestra é fundamental, mas o que tinha de acontecer no Brasil era ter mil orquestras como a de Heliópolis. Você percebe em Heliópolis que os meninos da Orquestra viraram referência, que o cara bacana é o cara que toca violino. A referência não pode ser o bandido, o cara que usa a arma. Quero que o filme incentive essa discussão sobre o fomento à educação musical e artística no Brasil de forma ampla.

 

 
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