04

Notícias_06.09

Um panorama da arte-educação no Brasil

Por Blog Acesso

 

Para incentivar o gosto pelas artes e despertar a potencialidade criativa dos estudantes, o governo brasileiro introduziu no currículo das escolas de ensino fundamental e médio, na década de 70, a disciplina Educação Artística. Tradução ipsis litteris do termo em inglês – art education –, a denominação não agrada aos especialistas da área, que preferem a nomenclatura Arte-Educação. “A terminologia é muito importante para revelar a relação dialética entre arte e educação. Pois ora haverá presença maior de um elemento, ora de outro”, explica Ana Mae Barbosa, pesquisadora e especialista em Arte-Educação. Batalha vencida, há cerca de dois anos o Ministério da Educação atendeu às reivindicações dos arte-educadores e mudou o nome da disciplina para Artes, no plural.


Engana-se quem imagina que a inclusão das artes na grade curricular do ensino básico significou especialização na área. Em muitas escolas, o professor de artes é o mesmo que ministra aulas de língua portuguesa e matemática. Além disso, uma portaria da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, criada em 1973, permite que um professor de artes seja formado em apenas dois anos e esteja apto a, de forma concomitante, lecionar música, desenho, teatro, dança, artes visuais e desenho geométrico, sem nenhuma garantia de conhecimento profundo em alguma dessas áreas.


A origem

O ensino das artes já existia de forma extracurricular desde o início da década de 30 do século passado, com as primeiras tentativas de escolas especializadas em arte para crianças e adolescentes. Na década de 40, o estado político ditatorial implantado no Brasil impediu o desenvolvimento da Arte-Educação e solidificou alguns procedimentos, como o desenho geométrico, o desenho pedagógico e a cópia de estampas usadas para as aulas de composição em língua portuguesa.


É nesse período que começa a pedagogização da arte na escola. A reflexão acerca da Arte-Educação vinculada à especificidade da arte é deixada de lado e dá espaço para uma utilização instrumental da arte na escola, para treinar o olho e a visão ou para liberar emoções. Esta época, pós-Estado Novo, foi marcada pelo surgimento das Escolinhas de Artes do Brasil, espaços experimentais que tinham como objetivo liberar a expressão da criança fazendo com que ela se manifestasse livremente.


A ditadura iniciada em 1964 perseguiu professores, e gradativamente as escolas experimentais foram fechando as portas. A partir daí, a prática de arte nas escolas públicas primárias foi dominada pela sugestão de temas e por desenhos alusivos a comemorações cívicas, religiosas e outras festas. “Ainda hoje existem reflexos dessa época. Nas escolas sem orientação de um especialista, os professores continuam repetindo aqueles modelos horrorosos em xerox. São coelhinhos da Páscoa, índios que fazem alusão ao Dia do Índio, imagens de péssima qualidade estética ”, comenta Ana Mae.


Obrigatoriedade e prática

Além de estabelecer a prática da polivalência, por meio de professores formados em dois anos para ministrar aulas que vão das artes plásticas às artes cênicas, a reforma educacional de 1971 também instituiu a obrigatoriedade do ensino das artes no ensino básico. Segundo Ana Mae, de 1989 a 1996 houve um esforço contínuo do Ministério da Educação para retirar a disciplina da grade curricular, sem sucesso. No entanto, a pesquisadora revela que o cumprimento da lei fica a desejar. “A lei diz que arte é obrigatória em todo ensino básico. Mas, em muitas escolas, a arte aparece somente em alguns anos, pois os diretores alegam que não está especificado na lei que o ensino é obrigatório para todas as séries”, lamenta Ana Mae.


A queda de braço entre arte-educadores e o governo tem outro capítulo importante na década de 90. Em 1997, o governo federal estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), diretrizes com o objetivo de difundir os princípios da reforma curricular e orientar os professores na busca de novas abordagens e metodologias. Segundo Ana Mae, nesses parâmetros foi desconsiderado todo o trabalho de revolução curricular, baseado na Aprendizagem Triangular, que Paulo Freire desenvolveu quando Secretário Municipal de Educação de São Paulo.


A nomenclatura dos componentes da Aprendizagem Triangular designados como Fazer Arte (ou Produção), Leitura da Obra de Arte e Contextualização foi trocada para Produção, Apreciação e Reflexão (da 1ª a 4ª série) ou Produção, Apreciação e Contextualização (da 5ª a 8ª série). “Infelizmente, os PCNs não estão surtindo efeito e a prova é que o próprio Ministério de Educação editou uma série designada Parâmetros em Ação, uma espécie de cartilha para o uso dos PCNs, que determina a imagem a ser ‘apreciada’ e até o número de minutos para observação da imagem, além do diálogo a ser seguido”, revela Ana Mae.


Arte-Educação e o acesso à cultura

Se até o modernismo as artes eram utilizadas como forma de expressividade do indivíduo, seus conceitos e emoções, no pós-modernismo é acrescentada a questão da formação do receptor. A perspectiva de quem vai usufruir e pensar o produto apresentado entra em pauta. Segundo Ana Mae, a Arte-Educação é fundamental para o desenvolvimento da cognição, que é um processo amplo de interação do indivíduo com o meio ambiente, pelo qual é construído o conhecimento. “Arte é uma linguagem por meio da qual damos conta do mundo, principalmente por meio da imagem, que pode ser uma peça de teatro, uma campanha publicitária ou uma embalagem de produto no supermercado”, explica Ana Mae. “É importante por se tratar de um veículo que prepara o indivíduo para receber criticamente os produtos culturais e saber o que fazer com eles”, conclui.



 

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Comentários > 8 Compartilhe
 

8 Respostas para “Um panorama da arte-educação no Brasil”

  1. Com certeza a Arte como instrumento que potencializa a vida anímica do ser humano, muito pode contribuir no campo da educação integral, do conhecimento intuitivo, da justiça social, onde todo ser humano possa ter um padrão de vida a altura de sua dignidade, mas é preciso ousadia e desprendimento de nossa sociedade que se diz democrática e “Cristã”. Nossas instituições estão capengas, sabem que é preciso mudanças em suas estruturas, mas ninguém ousa compartilhar espaços, repartir o bolo com bom senso e imparcialidade. Preferem o “banho Maria” e a postiça estabilidade amoldada em um “sistema político, econômico e financeiro esmagador e desumano”.

    jbconrado*

  2. Rita disse:

    Como professora de Artes me sinto insultada ao ver no nosso cotidiano pessoas sem a mínima formação em Artes, substituirem professores formados. O meu filho de oito anos que em casa gosta de se expressar através de desenhos, confessou que detesta a aula de Artes. Também pudera, pessoas não preparadas pensam que aula de artes é pedir para os alunos pintarem o desenho de uma data comemorativa, ou desenhar um padrão.
    Como este sistema educacional falido pode melhora a prática da arte educação, se nem ao menos tem conseguido eliminar o protecionismo de amigos e familiares daqueles que dirigem as esolas estaduas, de forma a respeitar-se a lista de espera dos qualificados em concursos público para professor substituto.
    Que atitude eu como mãe e professora poderia tomar neste sentido?

  3. Clênia, jatai-Go disse:

    Olá, sou iniciane nesse mundo mágico da arte, o qual cada dia que passa tenho mais paixão, sou aluna do 3º período de Artes Visuais da UFG. Concordo com todos os comentários acima, mas também acho que se cada um fizer a sua parte, mesmo que sejamos poucos faremos a diferença.

    gostei muito do blog , muito interessante .Abs

  4. erdem disse:

    qual foi a bibliografia utilizada e a data de postagem desse texto? poderia responder para o e-mail?

  5. ceci disse:

    Eu concordo na importancia da arte na vida de todos nos e nossas familias. Aarte nos leva a inventar e imaginar mundos sem fim, a ver e mostrar coisas de uma outra maneira. A exressao do indivuo e sua e de mais. Essa quando compartilhada pode trazer reacoes diferentes a cada um. ninguem

  6. Tiago disse:

    Olá pessoal convido vocês a acessarem o blog-arte http://www.continentalcultural.blogspot.com
    que desenvolvo com meus alunos da escola publica estadual na periferia da cidade de Guarulhos há 3 anos. Se puderem se cadastrem em nosso ateliê virtual e comentem nossas matérias. Toda equipe ficará bastante lisonjeada com suas criticas, sugestões, etc.
    Tiago Ortaet
    Arte/Educador
    http://www.continentalcultural.blogspot.com

  7. parabens pelo site otimo conteudo

  8. Irani Bello disse:

    Sou professora de Artes e também sou uma daquelas que tentam fazer a diferença não só com as crianças mas com todos indistintamente pois sei como a Arte mudou a minha vida!

Deixe uma resposta


 

 



Licença Creative Commons

O conteúdo da página "Um panorama da arte-educação no Brasil", disponibilizado no website Acesso, o blog da democratização cultural está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.