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Stela Barbieri – o acesso à arte e o acess...

Por Blog Acesso

 

Segundo dados do IBGE apontados pelo Ministério da Cultura – MinC, 92% dos brasileiros nunca frequentaram museus e 93% nunca foram a exposições de arte. Tal é a dimensão do desafio dos programas educativos de museus e exposições cujo papel, para além da formação de público, é aproximar as pessoas do universo da arte.

Para Stela Barbieri, curadora do Educativo Bienal, da Bienal de São Paulo, o acesso à arte está totalmente ligado à cidadania. Segundo ela, a arte, presente no cotidiano de todas as pessoas, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa; e é sobre isso que a arte contemporânea fala: nosso tempo e nossas urgências. Confira, abaixo, a entrevista concedida por Barbieri ao Acesso.

Acesso – As estatísticas mostram um público afastado de museus e exposições. Qual seria o papel dos educativos na tarefa de reverter esse quadro?

Stela Barbieri – O papel dos educativos das instituições culturais é, justamente, aproximar as pessoas do universo da arte, enfatizando, principalmente, a formação de professores e educadores sociais, profissionais que efetivamente atuam no ensino da arte. Esses educadores são os grandes responsáveis por levar a arte à escola. Produzimos conteúdo, materiais educativos, encontros de formação, temos a intenção de dar subsídios para que esses educadores possam atuar. Infelizmente, nas escolas, há pouco material disponível para pesquisa sobre arte. Porém, não cabe apenas aos educativos das instituições culturais a produção de material gratuito sobre arte e, mais especificamente, como é o nosso caso, sobre arte contemporânea. Acredito que, como um todo, a educação precisa ser valorizada e a percepção de que a arte está diretamente vinculada ao nosso cotidiano é imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa.

Acesso – Por isso, a arte é imprescindível, também, na própria educação?

S. B. – O artista e educador Robert Filliou, que tem algumas obras expostas na 30ª Bienal, falava que a arte é o que faz a vida ser mais interessante que a arte. Acho que ele tem razão: a arte nos sensibiliza para a vida, nos faz prestar atenção às filigranas, aos pequenos detalhes, àquilo que pode tantas vezes passar despercebido. Isso acontece com todos, indivíduos e grupos: olhar para a arte, conversar sobre o que ela desperta em cada um de nós e ao nosso redor, nos dá a possibilidade de perceber outras formas de atuação.

Acesso – Qual a importância da formação de professores e educadores sociais?

S. B. – A relação com os professores e educadores sociais é importantíssima, pois são eles que levam a arte à escola no dia a dia. Gostaríamos de poder visitar todas as escolas e ONGs, mas isso não é viável, então, por meio de seus professores e educadores, estamos conseguindo estar cada vez mais próximos de um maior número de escolas e organizações. A intenção da Bienal é estar em vivo contato e é durante as formações, seminários ou durante a própria exposição, nas visitas, que acontece o olho no olho, o encontro, por meio do diálogo e da experiência. Acreditamos que essa troca é o mais importante, porque é nosso desejo que as crianças, os adolescentes, os adultos, os idosos, todas as pessoas com quem esses professores e educadores trabalham, sejam tocadas de alguma forma.

Acesso – Quais os desafios de fazer a curadoria do educativo de uma mostra como a Bienal de São Paulo? Existe a preocupação de desmitificar a arte contemporânea como linguagem pouco acessível ou difícil?

S. B. – Acredito que esse é o grande desafio: tentar aproximar as pessoas da arte contemporânea e, de certa forma, desmitificá-la. Ela fala de nosso tempo, de nossas urgências. Os artistas discutem as mesmas coisas que todos nós, aquilo que vivemos, nosso cotidiano e, ainda assim, isso é visto como algo difícil, complicado. Nossa intenção é aproximar, é colaborar de alguma forma para que as pessoas tenham acesso e possam ser tocadas pelas poéticas dos artistas em conexão com suas próprias vidas e experiências. Tentamos sempre fazer essa relação entre a arte e a vida: ao falar de arte contemporânea, estamos falando de memórias, de experiências, de alegrias, de tristezas, daquilo que faz parte da vida de todos e de cada um.

Acesso – E como o acesso à linguagem se traduz em acesso à cidadania?

S. B. – O acesso à arte está totalmente ligado à cidadania. Conhecer a cidade, suas instituições culturais e espaços é fundamental para qualquer cidadão. Às vezes, recebemos crianças, jovens e adultos que nunca estiveram no Parque do Ibirapuera ou mesmo em um museu da cidade. Fazemos um grande movimento para que o maior número de pessoas possível venha à Bienal, tenha contato com os trabalhos, e nos colocamos à disposição para conversar sobre eles, seja durante a visita ou antes da abertura da exposição, nos Encontros de Formação.

Acesso – Como funcionam os encontros e visitas orientadas?

S. B. – Este ano, atendemos mais de 18 mil pessoas nesses encontros e temos agendadas, até o momento, visitas para 150 mil alunos. Atendemos todos os públicos, falamos com todos aqueles que demonstram qualquer interesse em conversar conosco: falamos sobre arte, com arte. Nas visitas orientadas, os alunos são organizados em grupos de 20.

Acesso – Qual é a principal função desses encontros e visitas?

S. B. – Os encontros e visitas são meios para refletir sobre a vida e a arte contemporânea, a partir das obras, artistas e conceitos, o que também possibilita às pessoas uma aproximação maior com o que pensam e com o que outros pensam, com modos de vida, crenças, dogmas, saberes e não saberes, enfim, com tudo aquilo que faz de cada pessoa um indivíduo particular e único.

Bernardo Vianna / blog Acesso

 

 
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