13

Notícias_07.12

Compartilhando conhecimento sobre democratização da arte

Por Blog Acesso

 

Na noite de ontem, na Laje da Galeria Ouro Fino, em São Paulo, uma roda de pessoas debatia o tema Democratização da arte: cidades e pessoas criativas. Tratava-se de um dos encontros da Semana Cinética, série de debates sobre temas como cultura, sociedade e sustentabilidade, promovidos pela plataforma de crowdlearning Cinese.me. O encontro aconteceu no Ponto de Contato, espaço de coworking, ou escritório coletivo, cujo conceito, segundo a proprietária, Fernanda Trugilho, tem afinidade com a ideia de aprendizado coletivo. “Crowdlearning tem muito a ver com coworking”, disse.

Saiba mais sobre a Semana Cinética neste post do blog Acesso.

Conforme a proposta do crowdlearning, a discussão em torno do tema da democratização da arte e da produção criativa correu de forma aberta, com a colaboração de cada convidado, que contava um pouco sobre sua trajetória, seus projetos e sua área de atuação. “Processos criativos geram identidade, colaboração e impactos sociais positivos”, observou Paola Garrido, que participou do encontro representando a Rede CEMEC, escola orientada a oportunidades de negócios criativos.

André Diniz, desenhista e roteirista de quadrinhos, contou a história da Urban Arts, galeria de arte digital criada por ele para divulgar e vender trabalhos de artistas, designers e ilustradores. “É um espaço para ilustradores e designers venderem sua arte, um espaço que esses profissionais não encontram nas galerias tradicionais”, explicou. A galeria, segundo ele, reuniu acervo de mais de 100 artistas em seu primeiro ano e está prestes a abrir o que André chamou de “uma plataforma mais democrática”, na qual qualquer um poderá cadastrar seus projetos e a curadoria das obras ficará a cargo de filtros e das interações dos usuários. A ideia lançada às pessoas reunidas levantou a bola para o debate sobre a legitimidade da curadoria: afinal, quem pode dizer que obra é melhor, qual tem mais valor, qual deve ou não ser exposta?

André Deak trouxe a experiência da Casa de Cultura Digital, uma antiga vila italiana no bairro paulista da Barra Funda, ocupada por artistas, designers, jornalistas e hackers. “A Casa de Cultura Digital é um espaço de coworking, crowdsourcing e crowdfunding. São pessoas do campo da cultura livre, do compartilhamento. Estamos sempre pensando para onde ir e como tornar nossos projetos sustentáveis”, contou André.

Foi na Casa de Cultura Digital que nasceu o Festival BaixoCentro, realizado em março, no centro de São Paulo. Além de André, outros participantes do BaixoCentro também estavam presentes e contribuíram com suas ideias sobre a construção de um festival de cultura que foi financiado colaborativamente – por meio da plataforma Catarse –, e que propôs, no lugar de uma curadoria, uma “cuidadoria”. Qualquer pessoa interessada em participar pôde incluir seu evento no festival, “cuidado” por todo o coletivo. “Qual a programação do festival? Não tem”, explicou uma das participantes ao falar sobre a proposta de inverter a relação de consumo de um serviço e torná-la uma relação de cidadania, com a participação das pessoas na definição de o que seria apresentado no festival.

Outro convidado, Felipe Lavignatti, trouxe para o debate o projeto Arte Fora do Museu, também hospedado na Casa de Cultura Digital. “Começou como site, depois virou aplicativo para smartphones e hoje é mil coisas”, contou. A ideia é oferecer um mapeamento das obras de arte que podem ser encontradas pelas ruas de São Paulo. Em um primeiro momento, 100 obras, entre estátuas, esculturas, arquitetura e grafites, foram selecionados. No segundo momento, o conteúdo deverá ser gerado de forma colaborativa. Felipe chamou a atenção para a diferença entre a experiência do usuário que acessa o site e daquele que acessa o mapeamento em dispositivos móveis. “A versão mobile geolocaliza o usuário e funciona como um guia das obras nas ruas, é uma experiência de redescoberta da cidade”, disse.

A contribuição sobre financiamento das produções veio de Lívia Razente, do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM. Segundo ela, grande parte da verba do museu vem da Lei Rouanet. Por outro lado, ela conta que é preciso buscar também fontes de recursos diferentes, uma vez que, apenas pela Lei Rouanet, o museu acaba por tornar-se dependente de grandes projetos e da renovação anual com parceiros e investidores.

O artista plástico Diego Johnson contou sobre sua experiência com o grafite nos EUA. Segundo ele, a legislação do país substituiu, em alguns casos, a punição de pichadores pela contratação de artistas para pintar murais pelas cidades. Diego contou a experiência que teve ao pintar um mural em um bairro pobre, quando foi informado por uma moradora que a casa em frente ao mural havia sido cena de um crime. “Aquela senhora me disse que isso era uma obra de Deus, uma obra de arte em frente a um local que remetia a uma coisa ruim; era uma forma de equilibrar as coisas”, contou o artista, mostrando como a arte pode servir para recuperar áreas urbanas degradadas.

Também artista plástico, Guilherme Kramer lembrou a época em que começou a divulgar seu trabalho pela internet e chamou a atenção para a proporção que a prática ganhou nos últimos anos. “Você vê o cara trabalhar, pode conversar com ele. Essas conversas são o mais interessante”, observou. Guilherme conta que começou a publicar seus trabalhos na internet em um momento em que tais conversas ainda se davam principalmente entre os próprios artistas. Mesmo capazes de alcançar pessoas em qualquer parte do mundo, as trocas de informações ainda eram restritas, ocorriam entre pessoas inseridas em determinados nichos. “Quando eu comecei a postar no Flicker era mais restrito. Hoje, as pessoas comuns – que não são artistas – estão nas redes sociais e comentam a arte”, disse.

Para Kramer, o autoral nunca esteve tão em voga e, por isso, as pessoas estão fascinadas em criar seus próprios sites. Já Diego chamou a atenção também para outro ponto positivo dos diálogos pela internet. “Na web, o artista pode tanto dar quanto receber”, comentou ele sobre os diversos tutoriais e vídeos que explicam diferentes técnicas e que estão disponíveis livremente na rede. “Quando era criança, queria fazer um curso de arte, mas não tinha um perto de onde eu morava”, lembrou.

Outro aspecto da divulgação de trabalhos pela internet debatido foi o da reutilização das obras. “Eu nunca usei marca d’água, essas coisas. Então, quando você vai ver, suas imagens já estão por toda parte. É muito legal essa remixagem toda”, disse Guilherme Kramer. Sobre o assunto, André Deak falou sobre licenças como o Creative Commons ou o Copyleft, que permitem um controle do autor sobre sua obra sem restringir seu uso por outras pessoas. “Você passa a vender o trabalho, não o produto. Então, quanto mais gente vir, por exemplo, minhas fotos, mais gente vai me contratar para tirar fotos”, explicou.

Bernardo Vianna / blog Acesso

Tags: , ,

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Compartilhe 758 visualizações
 

 

Deixe uma resposta