15

Entrevistas, Notícias_05.12

Eliana Yunes – 20 anos do Programa Nacional...

Por Blog Acesso

 

Diretora da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio, Eliana Yunes participou de sua formação e, também, da estruturação do primeiro momento do Programa Nacional de Incentivo à Leitura – PROLER, que no último domingo (13/05) completou 20 anos. Para marcar a ocasião, o blog Acesso publica entrevista com a pesquisadora sobre a formação de leitores e o papel da leitura literária na constituição do cidadão; sobre a criação do PROLER e da Cátedra Unesco de Leitura; e sobre o atual panorama da leitura no Brasil, traçado pela pesquisa Retratos da Leitura, publicada pelo Instituto Pró-Livro.

Durante a semana de 14 a 19 de maio, serão realizadas, em comemoração aos 20 anos do programa, diversas atividades na Casa da Leitura, sede do PROLER, no Rio de Janeiro. A programação pode ser acessada nesta página.

Acesso – Qual o papel da leitura literária na formação do indivíduo?

Eliana Yunes – A leitura literária aciona imaginação, afetividade e raciocínio. Razão e sensibilidade são mobilizados simultaneamente. É o sujeito todo que se comove para entender o outro e, assim fazendo, entender-se a si mesmo. A literatura é a prima rica da filosofia e da lógica: ela ensina a pensar com toda a energia humana.

Acesso – E o que significa negar ao cidadão o direito à leitura de literatura?

E. Y. – Esta privação do acesso à literatura significa privação do direito de saber e sentir que o mundo é maior, mais rico, mais complexo que o que ele vê e em que ele vive. A abertura de horizontes do humano se dá pelo sonho, desejo, fantasia que mobilizam a vontade.

Acesso – Você poderia nos falar um pouco sobre a proposta que deu origem ao PROLER?

E. Y. – Já tanta água correu sob e sobre a ponte que temo chover no molhado falando do PROLER. Em linhas gerais, a proposta do PROLER era a de construir uma política de leitura fora dos gabinetes, a partir da vida concreta de mediadores “naturais” para formar leitores (nas famílias, escolas, bibliotecas, museus, cinema, etc.). Considerando sua existência e práticas, levando em conta sua experiência posta em trocas, poder-se-ia criar redes poderosas de saber e fazer. O conhecimento em diferentes esferas e níveis seria articulado, o que proporcionaria a desescolarização, a dinamização de acervos, e em uma ou duas gerações, todos entenderiam que há muito mais no aprender a ler e escrever que a mera gramática e ortografia.

Acesso – E como foi a mobilização para que esses objetivos fossem alcançados?

E. Y. – Foi um projeto para muitos realizarem em conjunto, impossível de ser orquestrado com uma penada em um gabinete. Havia vontade política a começar pelo presidente da FBN [Fundação Biblioteca Nacional], o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, compromisso político e social de Estados, municípios, universidades e agremiações civis, recursos ainda aquém do plano de incentivo à leitura, mas o desejo humano fora mobilizado.

O Brasil é mestre em jogar fora a criança com a água do banho. E olha que, em alguns momentos, pessoas instruídas, tidas por eruditas, são os agentes da destruição: vaidade e inveja assolam os direitos e compromissos com a população que paga com seus impostos o ir e vir de interesses menores. Fiquemos com Lobato como exemplo e até com Mário de Andrade, lembrados também por seus projetos minimizados.

Acesso – Você é também responsável pela estruturação da Cátedra UNESCO de Leitura, na PUC-Rio. Conte-nos um pouco sobre esse processo.

E. Y. – A Cátedra nasceu no final do PROLER (original) como Reler, a rede de pesquisadores e promotores de leitura no Brasil – não buscamos por 8 anos a institucionalização, entendendo que a sociedade civil daria conta de manter-se articulada. Mas, sem recursos, a ação fica ao sabor das correntes. Juntar forças outra vez foi o mote. Reunidos os departamentos de Artes, de Educação e de Letras da PUC-Rio, com interesse na promoção da leitura, seus pesquisadores – Luiz Antonio Coelho, Tânia Dauster e Eliana Yunes – foram estimulados a apresentar à UNESCO seu projeto e pleito por um selo de qualidade.

Acesso – Da ideia à concretização, o processo durou quanto tempo?

E. Y. – O processo foi longo, mas, afinal, UNESCO e PUC-Rio assinaram, em 2006, o convênio que deu origem à Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio (o nome é uma marca universal de apoio). Nasceu, pois, interdisciplinar, com trocas multilaterais e focada na formação (no sentido de apoiar a criação da forma, como apontaria o poeta João Cabral de Mello Neto) de mediadores, para garantir qualidade, originalidade, sensibilidade e inteligência, sem academicismos ao incentivo à leitura, em múltiplas linguagens. Para isto, vital é ter pesquisadores, acervos e ações interinstitucionais que alimentem o processo, permanentemente em renovação, com o intuito de significar, construir sentido, interpretar o estar e ser no mundo de cada um na relação com os outros. A Cátedra, hoje, é este centro de referência internacional.

Acesso – A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que 75% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. Ainda, percebeu-se que o problema da leitura no país se dá, em primeiro lugar, pela falta de hábito e não pela falta de acesso. Como combater isso?

E. Y. – Podemos perguntar às escolas e às próprias bibliotecas. Por que será? De onde as populações tiram a desimportância da leitura? Mas há ainda que pensar que acesso não significa ter livros em prateleiras e acervos qualificados. Acesso é ter informação e oportunidade de experiência com a leitura que lhe seja prazerosa: que haja condições de descobrir que o “custo” da leitura tem compensações extraordinárias que podem proporcionar qualificação de vida! E por falar em “custo”, o livro não foi desonerado para o consumidor criar seu acervo.

Acesso – A mesma pesquisa também demonstrou que, pela primeira vez, o professor ultrapassou a figura da mãe como principal motivador da leitura. Qual o papel das escolas na formação do hábito de leitura?

E. Y. – Bom, aí está. Nas famílias com tradição leitora, as crianças desde bebês tem contato com livros e histórias, hoje com narrativas literárias e fílmicas. Nas condições socioeconômicas em que vive a maioria, com facilidades para compra de carro e “linha branca”, mas nenhum estímulo para gastar com formação (educação e cultura), a responsabilidade da escola aumentou muito. Oferecer a experiência da leitura de forma sensível e inteligente é a primeira tarefa do professorado. Sem leitura não há aprendizagem, não há resignificação do conhecimento. Mas os programas que as secretarias determinam têm a leitura como algo institucional. Por isso, se dedicam a conteúdos que não conseguem ser filtrados pelos jovens em formação.

Além disso, as práticas leitoras nas escola são, em grande parte, insípidas e inodoras. Ninguém se lembra do que leu em classe ou na biblioteca escolar no ano anterior, porque não sabe como o que leu se conecta em sua vida.

Acesso – E qual o papel da mediação da leitura na formação do leitor?

E. Y. – Todo. O bebê torna-se humano aprendendo a comer, falar e agir como humano. Portanto, a mediação existe para tudo. Com a leitura não seria diferente. O papel dos mediadores, família, escola, mídia, equipamentos culturais é justo esse: servir de ponto de encontro com a tradição civilizadora para os que chegam à sociedade, com nossas percepções e práticas. Oferecer-se como ponte entre dois tempos porque respeita ambos é mediar a apropriação e renovação das riquezas da cultura humana, como assinalou Hanna Arendt.

Bernardo Vianna / blog Acesso

 

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Comentários > 4 Compartilhe
 

4 Respostas para “Eliana Yunes – 20 anos do Programa Nacional de Incentivo à Leitura – PROLER”

  1. Isis Valeria Gomes disse:

    Parabéns pelos 20 anos do PROLER.
    Acompanhamos toda a tragetória do
    Programa e a luta por um país de leitores.
    Vida longa a Catedra UNESCO de Leitura
    PUC – Rio
    Isis Valéria Gomes.
    Presidente – FNLIJ

  2. Sônia Melo disse:

    Parabéns pela belíssima participação no Sem Censura :)

  3. maria vania disse:

    POR FAVOR,GOSTARA DO ENDEREÇO DA DRA ELANA YUNES PRA PODER CONVERSAR COM ELA.OBG

  4. Blog Acesso disse:

    Cara Maria, muito obrigado por acessar o site e acompanhar as nossas notícias.

    Para falar com a professora Eliana Yunes, por favor, entre em contato com a Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio por meio do telefone (21) 3527-1924 .

    Qualquer dúvida ou comentário, estamos à disposição.

    Atenciosamente,

    Equipe blog Acesso

Deixe uma resposta


 

 



Licença Creative Commons

O conteúdo da página "Eliana Yunes – 20 anos do Programa Nacional de Incentivo à Leitura – PROLER", disponibilizado no website Acesso, o blog da democratização cultural está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.