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Artigos_09.07

Arte e entretenimento

Por Aimar Labaki

 

Arte é a atividade humana de reorganizar os elementos do mundo sensível. Se o objeto dessa reordenação lúdica são os sons, trata-se de música. Se imagens, arte visual. Se palavras, literatura. Quando o que reorganizamos são as ações humanas, a arte ganha o adjetivo de dramática  -  que já foi só teatro,  e hoje também se espraia pelo cinema e pela ficção feita para televisão, vídeo, internet, celular, etc. , ainda que essas últimas abarquem outras artes.


Quando escutamos com atenção a uma música, colocamos em xeque nossa capacidade auditiva, mas também nosso repertório de sons e de estruturas sonoras. Já conhecíamos esse acorde? E esse silêncio? Quando vemos uma peça de teatro, revisitamos nosso repertório de relações humanas e de conceitos (morais, políticos, existenciais) para compreender e nos colocarmos diante das situações apresentadas. Qualquer obra de arte nos obriga, ainda que artista e espectador não tenham consciência disso, a nos redefinirmos física e simbolicamente. Esse processo ocorre mesmo quando a fruição da obra se dá apenas em nível sensorial ou emocional. Mas é claro que quanto mais informado e cultivado for o espectador, mais profundamente ele vai conseguir aproveitar a experiência artística.


Nesse sentido, é sempre possível ampliar o prazer da experiência estética. O campo para o qual se pode crescer é o da razão e da consciência. A comunicação sensorial pode se dar sempre . Qualquer analfabeto pode se emocionar com a leitura de um poema de Carlos Drummond de Andrade.  No entanto, se ele aprender a ler e tiver acesso ao mesmo poema, com certeza o lerá à sua maneira, única, incorporando-o a seu patrimônio simbólico. Isto é, ele tornará seu aquele poema.  É claro que o mesmo se dá se a mesma pessoa, sem aprender a ler, decorar o poema.  Mas, podemos afirmar, sem medo de sermos preconceituosos, que tal experiência estará sempre aquém do potencial desse cidadão. Qualquer pessoa que nunca tenha ido ao cinema pode se emocionar com um DVD de um filme de Fellini. No entanto, se tiver o hábito de assistir ao audiovisual em uma tela grande e com uma projeção decente, e conhecer um pouco da linguagem, poderá se emocionar não só com a história, mas com a forma como ela é contada e com os elementos sonoros e visuais que a compõem.


A rigor, a arte não tem função. O único sentido da arte é existir. A única função do artista é produzir arte. O que não quer dizer que, independente ou paralelo a essa autosuficiência, não possam existir funções inerentes ao processo artístico: políticas, pedagógicas, sociais, terapêuticas, etc. Mas, para que a arte possa amadurecer e frutificar em sua plenitude é essencial que seu processo só esteja subordinado à sua lógica interna e à subjetividade do artista – não confundir isso com a defesa da simples expressão da vontade do artista. Para ser arte é preciso que dialogue e ultrapasse a tradição em que se insere. Mas essa é uma condição a priori, não uma função.


Entretenimento é a atividade humana de distrair, relaxar o homem por meio da reprodução de padrões artísticos já conhecidos. Uma comédia de costumes ou um melodrama tout court, a música popular ou erudita que se estrutura apenas pela reprodução de elementos conhecidos e queridos do gosto médio, as telenovelas ou filmes de longa metragem “comerciais” são exemplos de obras produzidas tendo por objetivo o entretenimento. Se a arte leva o indivíduo a redefinir os seus sentidos, a função do entretenimento é levar o fruidor a esquecê-los. Mais ainda, pretende que ele oblitere sua capacidade de refletir e simbolizar.


A arte faz o homem lembrar-se de si e reinventar-se. O entretenimento permite ao homem esquecer sua própria existência e seus problemas ( isto é, suas circunstâncias). Arte faz pensar. Entretenimento faz parar de pensar. Ambas funções importantes e necessárias. Mas necessariamente antagônicas. Ainda que exista um enorme universo de obras que transitam simultaneamente pelas duas funções. O mundo não é branco e preto, mas cinza. Já vivi o suficiente para aprender isso. No entanto, quando falamos de democratização da cultura e, pior ainda, de financiamento público, misturamos sem pudor esses dois conceitos. A arte, por sua própria natureza, implica em risco, incômodo, erro. O Entretenimento, por seu lado, só é arriscado na medida em que tudo que é humano é passível de erro. O entretenimento é parceiro natural da comunicação das grandes empresas. A arte só o é excepcionalmente. Não vai aí um juízo de valor, mas o reconhecimento do universo por onde transitam essas atividades. Nesse sentido, as atividade pára-artísticas são parceiras mais naturais da comunicação das grandes empresas.


O investimento na área social e ambiental, cada vez maior, encontra, por exemplo no teatro amador, educativo ou terapêutico, mecanismos excepcionais de atuação, que satisfazem simultaneamente os objetivos da empresa e as necessidades da comunidade. A produção profissional de arte no Brasil se encontra descolada num limbo entre um Estado incompetente e que lavou as mãos de suas responsabilidades na área e um Mercado que ainda não se civilizou por completo. Daí uma produção que não se define entre a arte e o entretenimento, que quer ser artístico, mas não aceita riscos. Que quer entreter, mas almeja o estatuto de arte, que considera superior. No mundo globalizado, a função da arte é resistir. E para tanto, cada vez mais, é preciso que os artistas lutem para poder produzir sem nenhuma outra função, a não ser o exercício livre e responsável de seu ofício. Nunca foi tão difícil ser simples.


Aimar Labaki é dramaturgo, diretor, novelista, tradutor e ensaísta.

 



 

 
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3 Respostas para “Arte e entretenimento”

  1. [...] participação de mais de 80 pessoas de destaque na área cultural: o dramaturgo Aimar Labaki, o artista plástico e crítico de arte Adriano de Aquino, o especialista em [...]

  2. maria dudah disse:

    Adorei a matéria Arte e Entretenimento do querido Aimar Labaki. Como sempre inteligente, esclarecedor. Obrigada significa.
    maria dudah senne

  3. Parabéns pelo texto, por sua fuidez e clareza. Este tema deveria ser debatido e aprofundado por todos os artistas. Tento servir a estes dois senhores, mas confesso que é difícil atuar nas duas frentes sem gerar desgastantes embates internos. De qualquer forma, obrigado.
    Cauê Beltrame

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