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Notícias_01.08

O século da criatividade

Por Blog Acesso

 

Na pauta de estratégias de desenvolvimento para o século 21 destaca-se um recurso que, além de não se esgotar, se multiplica: a criatividade. Com isso, a forma do homem conceber e atuar no mundo passa por uma reviravolta, evidenciando que o motor da economia mudou, impulsionado pelo esgotamento dos recursos duráveis do planeta. Na história da economia, passamos da matéria-prima para o produto e na seqüência para o serviço. Hoje, a mola propulsora do setor tem como base o intangível e engloba disciplinas diversas que têm como ponto comum o elemento criativo, simbólico. Trata-se da economia criativa, conceito que faz da cultura sua maior aliada na busca por um desenvolvimento sustentável.

A economia criativa se apresenta como uma solução para a falta de perspectivas, atraindo até mesmo os mais céticos e ortodoxos, na medida em que começam a pulular exemplos concretos. Após constatar a falência de seu modelo manufatureiro, a Grã-Bretanha identificou o setor cultural como potencial fonte econômica substituta. O resultado não tardaria a chegar na forma de números e de desenvolvimento. Entre os anos de 1997 e 2000, as indústrias criativas abocanhavam 7,9% do PIB, enquanto a economia clássica respondia por apenas 2,8% do PIB. Só no ano 2000 foi gerada uma média de 1,95 milhão de empregos. Não à toa, em 1999, James Wolfensohn, então Presidente do Banco Mundial afirmou a importância da cultura para o crescimento socioeconômico.

“Considerações culturais devem ser incorporadas em todos os aspectos do desenvolvimento, se quisermos que o desenvolvimento seja sustentável e efetivo. A cultura é um recurso subestimado nos países em desenvolvimento. Pode gerar renda (…) e além disso, o apoio às atividades culturais tem um profundo efeito no bem-estar, na organização social e no funcionamento da sociedade”.

Nos Estados Unidos, as indústrias criativas são o segundo maior produto de exportação e, em países como França, Espanha e Portugal, elas representam 3% do PIB. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a economia criativa responde por 7% das riquezas produzidas no mundo.

No Brasil, o conceito começou a ser estudado há apenas três anos e já desponta como uma promessa viável de desenvolvimento. Nesse contexto, a diversidade cultural nos dá uma larga vantagem em relação a outros países. Um outro aspecto é que, ao contrário do modelo vigente no hemisfério norte, focado no crescimento econômico, apostamos todas as fichas numa proposta de desenvolvimento sustentável, com base no desenvolvimento local – ou glocal, já que faz convergir o local e o global.

Para a socióloga e consultora da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) Anna Jaguaribe, é preciso desenvolver políticas públicas de apoio ao agente criativo e criar meios não só para a produção, como para a distribuição e o acesso ao bem criado. Com o que concorda Lala Deheinzelin, diretora da Enthusiasmo Cultural, Special Advisor on Creative Economy – South South Cooperation Special Unit - ONU. “A chave da economia criativa não está na produção. Os desafios que temos pela frente são distribuir, dar visibilidade e articular. De uma forma prática, o que fazer para que a renda feita no Ceará chegue ao estilista de Paris, da Austrália ou até mesmo de São Paulo? Como tornar o trabalho da rendeira visível? E como estabelecer o diálogo entre a rendeira do Ceará e o estilista da Austrália? A resposta a essas questões está na instrumentalização de profissionais e instituições transdisciplinares, que funcionem como um modem, criando conexões. O Sebrae e os Pontos de Cultura atuam hoje como um exemplo de modem”, diz. Baseado no princípio da criatividade, o conceito de economia criativa abrange uma gama de disciplinas que dialogam entre si para gerar conteúdos e valores.

Nesse sentido, a arte e a economia se unem e seguem formando parcerias com a política, o social, o ambiental, o comportamental, o tecnológico e o científico, entre outras interfaces. Aqui deixa de existir o contraponto entre o artista e o economista e ambos passam a ser inseparáveis, o que configura a quebra de um paradigma secular. Para Lala Deheinzelin, a transdisciplinaridade é o vetor que viabiliza a economia criativa. “Estamos assistindo ao início de uma nova disciplina que eu chamaria de ‘ecologia cultural’. Assim como o homem passou a lidar com o meio ambiente de uma forma integrada, no momento em que percebeu sua finitude e declínio; também passou a vislumbrar as disciplinas humanas de forma sistêmica. Uma experiência bem-sucedida em transdisciplinaridade é o São Paulo Fashion Week que ao adotar, em 2007, a economia criativa como causa transformou seu olhar sobre a moda, reconhecendo-a como um todo que envolve múltiplos setores e saberes para além do design de roupas”, explica.

Em artigo publicado em 2005, a economista e autora do livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável - o Caleidoscópio da Cultura, Ana Carla Fonseca Reis sugere que a cultura seja pensada de uma forma ampla, como fator de: “consolidação de identidade; de divulgação da imagem, regional e internacionalmente; de aglutinação de comunidades e grupos; de educação e inclusão social; de promoção da diversidade; de geração da mola propulsora da economia: criatividade e inovação; de atração de mão-de-obra qualificada; de geração de renda, emprego, impostos, infra-estrutura e riqueza; e de regeneração de uma região”.

Diante de tantas possibilidades anunciadas é quase impossível não pensar que o advento de um novo modelo de negócios pode trazer consigo uma nova ordem econômica, política e social. Entretanto, ainda que novos formatos de produção, circulação e distribuição da cultura demandem novas regras, além da reconfiguração da divisão de trabalho, seria leviano fazer tal afirmação. Mesmo porque o termo economia criativa sequer caiu no domínio público e sua aplicação engatinha. Mas uma coisa é possível afirmar em meio às incertezas: o crescimento da cultura enquanto negócio é inevitável e já não há como voltar aos tempos em que o tangível ditava os princípios econômicos.

Priscila Fernandes/Boletim da Democratização Cultural

 

 
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