26

Entrevistas_04.07

Ana Mae Barbosa: Arte na veia

Por Blog Acesso

 

Ana Mae Barbosa, a entrevistada dessa edição do Boletim da Democratização Cultural, é professora de pós-graduação em arte-educação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Foi diretora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e presidente do International Society of Education through Art (InSea). É professora visitante da The Ohio State University, EUA. Publicou, entre outros, os livros: Arte educação no Brasil; Arte educação: conflitos/acertos e Arte-educação no Brasil: das origens ao modernismo.

Qual a situação do ensino das artes nas escolas hoje?

Ana Mae Barbosa - A ditadura deixou marcas no ensino das artes nas escolas. Principalmente no ensino primário, essa disciplina foi dominada pela sugestão de temas e por desenhos alusivos a comemorações cívicas, religiosas e outras festas. Nas escolas sem orientação de um especialista, os professores continuam repetindo aqueles modelos horrorosos em xerox. São coelhinhos da Páscoa, índios que fazem alusão ao Dia do Índio, imagens de péssima qualidade estética. Além disso, no final da década de 90, houve um esforço contínuo do Ministério da Educação para retirar a disciplina da grade curricular, sem sucesso. E as escolas não cumprem o que diz a lei. A lei diz que arte é obrigatória em todo ensino básico. Mas, em muitas escolas, a arte aparece somente em alguns anos, pois os diretores alegam que não está especificado na lei que o ensino é obrigatório para todas as séries.

Como a arte influi na capacidade de aprendizagem? E como deve ser inserida na escola para que a criança entenda, desde cedo, o significado de Arte?

Ana Mae Barbosa - Ainda é preciso mais pesquisas, mas podemos dizer que a arte leva os indivíduos a estabelecer um comportamento mental que os levam a comparar coisas, a passar do estado das idéias para o estado da comunicação, a formular conceitos e a descobrir como se comunicam esses conceitos. Todo esse processo faz com que o aluno seja capaz de ler e analisar o mundo em que vive, e dar respostas mais inventivas. O artista faz isso o tempo todo, seja para melhor se adequar ao mundo, para apontar problemas, propor soluções ou simplesmente para encantar, que é uma das formas de tirar você das mazelas do dia-a-dia. A arte não tem certo ou errado, o que é muito importante para as crianças que são rejeitadas na escola por terem dificuldade de aprender, ou problemas de comportamento. Na arte, eles podem ousar sem medo, explorar, experimentar e revelar novas capacidades. A arte desenvolve a cognição, a capacidade de aprender. Isso já foi demonstrado em uma pesquisa feita nos Estados Unidos em 1977, quando foram estudados os dez melhores alunos em um período de dez anos. Os melhores tinham apenas uma característica em comum: todos tinham feito ao menos dois cursos de arte em suas trajetórias pelas escolas. Além disso, um país só pode ser considerado culturalmente desenvolvido se tiver uma produção de alta qualidade e uma compreensão dessa produção também de alta qualidade. No Brasil, precisamos democratizar a compreensão e isso deve começar nas escolas, na educação infantil.

Como um educador pode inovar para prender a atenção dos alunos quando ensina arte?

Ana Mae Barbosa - Levando-os ao contato direto com a Arte e fazendo-os pensar no que estão vendo. A Pedagogia Questionadora de Paulo Freire é ainda o melhor caminho para levar a pensar e formular significados.

Em um país como o Brasil onde a arte é pouco divulgada, como um cidadão pode desfrutar de seu direito de acesso à cultura?

Ana Mae Barbosa - Não só é pouco divulgada, mas em geral, quando é divulgada se usa a linguagem hermética. A Internet tem democratizado o acesso a museus, exposições e tem dado visibilidade a trabalhos de muitos artistas, mas ainda não confere reconhecimento como artista. Para alguém ser reconhecido como artista é necessário participar de exposições em Museus, Bienais, sair na “Bravo”, etc. Enfim, ser abençoado por algum curador. É com os curadores que está o poder de designar alguém como artista. A maioria deles é homem, vem das classes altas e é submetido ao código hegemônico europeu e norte-americano branco.

Qual a importância das ONGs para a arte-educação?

Ana Mae Barbosa - As ONGs que nascem de projetos comunitários fazem trabalhos extraordinários. Há muitos projetos interessantes em desenvolvimento no Nordeste, por exemplo. Mas há quem pense apenas em formar orquestras para algumas empresas mostrarem que têm responsabilidade social. Tenho visto barbaridades, projetos equivocados, pensados para projetar o presidente da empresa ou o nome da mulher dele na revista Caras. Há projetos que instalam ateliês temporários em favelas, em que a comunidade ajuda um artista famoso a pintar o que ele determina. Há outro, apresentado como grande projeto social, que leva artistas para decorarem a casa de favelados. Isso é oportunismo das pessoas explorando a ingenuidade dos pobres. Ou no mínimo uma brutal falta de consciência política. Eu não gosto que as empresas façam projetos, prefiro que elas apóiem projetos nascidos na comunidade.

O que já tem sido feito para melhorar o acesso à Arte para a grande massa? O que ainda pode ser feito?

Ana Mae Barbosa - Nos últimos anos os museus, centros culturais e mega-exposições têm se preocupado em criar departamentos educacionais, contratando educadores para facilitar a mediação entre Arte e Público. A qualidade é variável e o empenho também. Muitas vezes o educativo existe na instituição para trazer público para inflar a estatística a fim de mostrar ao patrocinador que numerosas pessoas viram a exposição. Em geral reside aí o empenho em trazer levas de escolares às Bienais de Arte e do Livro. Outras instituições realmente se interessam em dar acesso à Arte a todas as classes sociais. Quando dirigi o MAC fui criticada por dar ênfase ao educativo em um momento que só o Museu Lasar Segall e o próprio MAC investiam na Arte/Educação. Nosso trabalho foi tão frutífero que operou uma transformação no ensino da Arte nas escolas em todo o Brasil. A ampliação do educativo das instituições de Arte e a análise e sistematização do que fazem através de publicações, muito ajudaria a descobrir o que mais pode ser feito.

Fonte: Trechos extraídos de entrevista pessoal com Ana Mae Barbosa e entrevistas concedidas a Agência Repórter Social (jornalista Flávio Amaral) e Museu de Arte Contemporânea da USP.

 

 

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Comentários > 52 Compartilhe
 

52 Respostas para “Ana Mae Barbosa: Arte na veia”

  1. Bruna Lorranna de Souza Feitosa disse:

    Ola sou estudante do curso de pedagogia e estou fazendo meu tcc com tema a arte na formação da criança e suas contribuições para educação, e gostaria que me indicasse algumas obras ou um contato com a professora Ana mãe Barbosa. Obrigada…

  2. blogacesso disse:

    Cara Bruna, muito obrigado por acessar o site e acompanhar as nossas notícias.

    Você pode entrar em contato com Ana Mae Barbosa pelo e-mail anamae@uol.com.br

    Qualquer dúvida ou comentário, estamos à disposição.

    Atenciosamente,

    Equipe blog Acesso

Deixe uma resposta


 

 



Licença Creative Commons

O conteúdo da página "Ana Mae Barbosa: Arte na veia", disponibilizado no website Acesso, o blog da democratização cultural está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.