Criado em 2004, o Núcleo de Estudo em Espaço e Representações – NEER investiga a construção, as transformações e as representações do espaço por meio de diferentes experiências e vivências culturais na busca por ampliar e aprofundar a abordagem cultural da geografia. Como uma rede, congrega diversos grupos, projetos de pesquisa e programas de pós-graduação espalhados pelo País. Coordenadora do Núcleo e professora da Universidade Federal do Paraná, a Doutora em Geografia, Salete Kozel, conta ao Acesso o que é o estudo da “geografia humanística”, como se dá a relação entre os conceitos de cultura e espaço e qual a contribuição do NEER para a democratização cultural.
Acesso – Quais os princípios que norteiam o Núcleo de Estudo em Espaço e Representações – NEER ? E como surgiu esse trabalho?
Salete Kozel – O NEER surgiu de uma insatisfação com a ausência de trabalhos ligados à área de geografia humanística, nos encontros que, até então, aconteciam pelo País. Nosso principal objetivo é ampliar o espaço de discussão e realização de propostas para a geografia cultural, tema ainda muito novo no Brasil.
Acesso – Quais as principais linhas de pesquisa do Núcleo?
S.K. – O NEER, hoje, envolve 19 universidades brasileiras, com várias linhas de pesquisa. Temos a nova geografia cultural; a geografia humanista; os estudos de percepção e cognição de representações; e temos as vertentes da geografia ligadas à religião, ao gênero, às festas e ao turismo, entre outras. O Núcleo tem quatro grupos de pesquisa – Grupo de Pesquisa Território, Cultura e Representação; Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Modos de Vida e Culturas Amazônicas; Estudo do Espaço Social e suas transformações, implicações sobre a territorialidade e a gestão territorial; e o Grupo Geração de Ambientes – sob um denominador comum: desenvolver a sociedade por meio de um entendimento humano da geografia. As instituições, projetos ou professores desenvolvem pesquisas próprias, assim, nem todas as áreas aparecem nas 19 universidades, mas começamos a desenvolver trabalhos em conjunto.
Acesso – O livro Expedição amazônica: desvendando espaço e representações dos festejos em comunidades amazônicas é resultado de uma desses trabalhos em conjunto, certo?
S.K. – Sim, esse foi um dos primeiros trabalhos desenvolvidos em conjunto, pela UNIR, de Porto Velho, e a UFPR, de Curitiba. Fomos entender, por meio de um período de imersão, como surgiu essa festa tão grande e forte. Pudemos experimentar a diversidade e compreender que sua aplicação está justamente em respeitar a cultura do outro. Agora, nosso próximo passo é criar projetos que integrem diversas universidades.
Acesso – O que é geografia humanística? Como relacionar geografia e cultura?
S.K. – A geografia humanística é uma vertente paradigmática surgida nos Estados Unidos contra o conceito de uma geografia que visava somente a precisão, os valores numéricos. Essa nova ideia tenta resgatar o homem, fala do espaço do indivíduo, do mundo reunido. Ela não fala somente do homem pelo homem, nem do lugar sem nenhuma relação, mas da associação entre os espaços e o homem. Ela busca fazer uma leitura a partir dos conceitos territoriais. Assim, uma festa não é só uma festa, mas possui relação com as produções culturais e econômicas de um grupo, como acontece na festa de Parintins. Para entender por que um boi representa a cultura do meio da floresta é preciso remeter ao movimento de imigração que ocorreu nessa região.
Acesso – Como essa relação de dá no espaço urbano?
S.K. – Essa relação é muito estreita, especialmente agora que a maior parte da população vive em espaços urbanos. Ela contribui para entender como e onde construir, como reorganizar uma comunidade. Como é o caso da favela Parolin, de Curitiba. Mesmo com o ganho de uma casa melhor em outra região, os moradores retornam à favela. Para entender o porquê desse deslocamento não basta mirar somente os valores culturais, pois eles se deslocariam com o grupo, mas também com a representatividade daquele local para a comunidade.
Acesso – As mudanças nas relações dos homens com os novos espaços urbanos podem trazer novas percepções sobre a cultura?
S.K. – Sim. Como é o caso dos antigos centros, que antes abrigavam a alta sociedade e que agora acolhem as populações mais pobres. A alta sociedade criou suas ilhas fora dessas regiões, até mesmo muito afastadas dos centros, com residenciais que valorizaram o preço do território. E o que é o centro hoje? Antes, a dinâmica econômica acontecia ali, hoje, ela se deslocou ainda mais por conta da internet, que permite que essa dinâmica econômica aconteça em lugares virtuais. Assim, o que se percebe é uma tentativa de gerar nova função para os centros, com um resgate cultural da memória e do turismo.
Acesso – Qual a contribuição da geografia humanística para o processo de democratização cultural?
S.K. – Esse trabalho pode ajudar muito. À medida que se desvenda os espaços e se compreende a sociedade local, é possível criar propostas de mudança para o desenvolvimento da sociedade, sem que os valores culturais dos grupo sejam agredidos, sem que eles se percam e sem que o próprio projeto seja inutilizado.
Tags: cultura, espaço urbano, geografia, Núcleo de Estudo em Espaço e Representações, Salete Kozel





Gostei muito da entrevista com a Profª. Salete Kozel. Com muita clareza ela mostra as implicaçõs da ciência geográfica, em sua vertente cultural e humanística, com o cotidiano sociocultural dos grupos sociais e seu espaço de vivência. Na oportunidade, parebenizo a Professora por suas pesquisas e estudos, além de sua importante atuação na Geografia Cultural Brasileira e o blog acesso pela iniciativa de tratar do tema e a excelente escolha da entrevistada.
Arlete
UEG – UFU