27

Notícias_05.10

Grafite: arte urbana ganha espaço e reconhec...

Por Blog Acesso

 

Era o branco e o preto. Era o cinza do asfalto que cobria o caminho. Era o cinza que se via não importava para onde se olhasse. Era a cidade que se vestia sem cores para se camuflar. Veio então um colorido. Vermelho, azul e amarelo. Veio o roxo, o laranja e o verde. Vieram então tantas cores que nem se podia imaginar. Tantas formas, tantas letras, que era impossível vislumbrar. Mas também veio o homem, que chamou tudo aquilo de lixo. O homem que não quis viver o colorido. O homem que não entendia aquela euforia, que não acreditava que tudo aquilo poderia ser beleza, que todo aquele grafite poderia ser arte. Arte que estava ali para ele e todos aqueles que quisessem ver. Eram os meados da década de 1960.

Surgida na periferia de Nova York, a cultura do grafite, com suas frases e caligrafias elaboradas, desenhos de protesto social e cunho político, foi, por décadas, tida como vandalismo. Primeiro por simbolizar transgressão, já que se apropriava de espaços públicos sem autorização prévia, depois porque seus traços incomuns chocavam os olhos de quem nunca havia visto tal arte.  Porém, de uma forma conturbada, essa arte e expressão sociocultural sobreviveu a cinco décadas; ultrapassou as barreiras da cidade de Nova York e ganhou as ruas de todo o mundo; modificou a visão de muitos que a consideravam puro lixo e deixou, por vezes, de ser contravenção. Mas como?

São vários os pontos que convergiram para que a visão do grafite fosse modificada. Nenhuma delas é a principal, tão pouco seu papel é coadjuvante a ponto de poder ser excluída. No entanto, o mais importante é que uma sucessão de  acontecimentos culminou na atual idéia que artistas, governo e população têm do que é grafite.

Se, nos meados de 1960 e 70, a população urbana crescia de modo avassalador, a cultura campestre e interiorana ainda era expressiva. Além disso, se dentro das galerias se vivia a efervescência da pop arte, fora delas a visão de liberdade artística era outra. Sem esquecer-se de que era extrema a cultura econômica. Vindo da periferia, o grafite não poderia ser avaliado de forma diferente do que como desordem e rebeldia que deveria ser contida.

Porém, os ideais urbanos aos poucos foram sendo absorvidos pela população que entendia a efemeridade das coisas e, porque não, da arte. Com o mesmo ritmo que modificavam os ambientes da cidade, modificava-se o olhar voltado ao grafite, que também mudava.

Se, quando usado pela primeira vez, o termo grafite – que significa inscrição caligrafada ou um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade – fora aplicado como design de inscrições informativas do Império Romano, já em suas primeiras aparições para o uso urbano agregara o cunho político e social. No século 21, a manifestação ganhou o apreço artístico, antes inimaginável. Hoje,  compreende-se a diferença entre grafite e pichação, esta última sem qualquer relação com a arte.

Entretanto, se tantas modificações fizeram o grafite superar sua má reputação, foi sua constante vontade de dizer algo a todos, de forma inclusiva e democrática, que fez dele uma das mais importantes artes urbanas da atualidade, que vem ganhando seu espaço e, cada dia mais, as ruas da cidade.

Trajetórias

Grafiteiro desde a adolescência, José Augusto Amaro Capela, o Zezão, conta que, em sua trajetória, viu toda essa mudança de olhar para o grafite acontecer e acredita que foi essa simbiose entre a importância da fala do artista e sua obra engajada nos problemas urbanos que o mantiveram vivo. “Levei muito esculacho da polícia quando era mais novo. Há poucos anos é que essas mudanças vêm acontecendo. Vencemos o obstáculo da discriminação e, hoje, posso ser visto como um artista urbano”, comenta. “Faço esse trabalho porque quero ver minha cidade mais bonita. Mas também porque quero incluir os moradores de rua e de periferias. Quero levar arte a eles, mostrar às autoridades lugares que deveriam ter mais atenção. Mostrar que não é preciso ir a um museu para ver obras de arte. São esses os motivos que me estimulam a grafitar. Quero dar um grito para pedir a atenção do governo. Esse é o meu papel como artista urbano”, ressalta.

Atualmente, Zezão é reconhecido nacional e internacionalmente, estando entre os artistas convidados a expor na primeira mostra de arte urbana do Museu de Arte de São Paulo – MASP . Mesmo feliz por ser reconhecido por sua obra em conceituados meios, ele sabe que seu trabalho não deve frequentar apenas as grandes galerias. “A rua é a minha grande vitrine. Na rua, mostro meu trabalho a toda a sociedade e não somente a um grupo selecionado. Hoje, fico muito feliz por um dia, há tantos anos, ter acreditado que essa arte poderia dar certo. O grafite tem essa importância de democratizar a arte”, enfatiza.

Se grandes nomes emergem, também grandes homens

Visto, inicialmente, como arte transgressora e underground, o grafite passou a ser utilizado como veículo para fins nobres. Se antes eram os bons moços que se degeneravam, hoje o percurso é inverso: são os jovens carentes, moradores de rua e marginalizados que retornam à sociedade por meio do trabalho com o grafite. Como no Projeto Quixote , promovido pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP há 10 anos, profissionalização jovens e estabelecendo uma relação entre eles e empresas que buscam esse trabalho.  Segundo Renata Rampazzo, diretora da Agência Quixote Spray Arte , nos últimos dois anos, tempo médio de curso, 300 jovens receberam apoio médico e psicológico, além das oficinas, conseguindo uma recolocação no mercado de trabalho e estabilidade emocional. “É importante para eles verem que podem trabalhar com o que gostam e ganhar a vida assim. Trabalhando como grafiteiros eles correm menos risco de voltar ao tráfico”, afirma.

Tantos são os frutos que a ONG lançou o livro Por trás dos muros: horizontes sociais do graffiti que acaba de ser escolhido pela Biblioteca Nacional para compor o acervo das bibliotecas  municipais do País.

Completar 50 anos de vida significa para o homem quase metade de sua vida, porém, para a arte, esse tempo é quase como um piscar de olhos, ínfimo. O que hoje se sabe é que os grafiteiros recuperam as cores da cidade e a transformam em um lugar da cultura, não dos dominantes, mas do povo, dos que nela vivem. Com essa perspectiva, é possível vislumbrar que o grafite de ontem não é o de hoje, e o de hoje não será o de amanhã. Mas sempre o do aqui e agora.

Por Luisa Costa / Blog Acesso

Edição Priscila Fernandes

 

 

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Comentário > 1 Compartilhe
 

Uma resposta para “Grafite: arte urbana ganha espaço e reconhecimento”

  1. [...] Completar 50 anos de vida significa para o homem quase metade de sua vida, porém, para a arte, esse tempo é quase como um piscar de olhos, ínfimo. O que hoje se sabe é que os grafiteiros recuperam as cores da cidade e a transformam em um lugar da cultura, não dos dominantes, mas do povo, dos que nela vivem. Com essa perspectiva, é possível vislumbrar que o grafite de ontem não é o de hoje, e o de hoje não será o de amanhã. Mas sempre o do aqui e agora. http://www.blogacesso.com.br/?p=2710 [...]

Deixe uma resposta


 

 



Licença Creative Commons

O conteúdo da página "Grafite: arte urbana ganha espaço e reconhecimento", disponibilizado no website Acesso, o blog da democratização cultural está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.