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Notícias_05.10

Antigas estruturas, novos horizontes

Por Blog Acesso

 

Como uma saudação àqueles que apontam, uma majestosa escadaria mostrava o caminho para o belo salão principal que, sob um pé-direito de 22 metros, recebia os convidados. No centro deste monumental ambiente, pensava-se em criar uma cúpula para trazer maior suntuosidade ao palacete da Avenida Tiradentes. De seus três pisos, dois possuíam pátios internos, sendo todos eles inteiramente revestidos com nobres tacos de madeira pinho-de-riga e cerâmica francesa. Na fachada, predominavam extensas linhas retas, um frontão triangular e ainda pórticos colunados, que criavam ambientes regulares, simétricos e sóbrios, que asseveravam se tratar de uma construção neoclássica. Entretanto, sob sua estrutura não havia nenhuma bela pintura de estuque. Pelo contrário, os tijolos aparentes comprovavam as inúmeras tintas recebidas, retiradas e desgastadas. Uma luminosidade baixa no último piso transformara-se em umidade e mofo. E o lindo claustro central, com janelas que dariam para a cúpula abobodada, nunca finalizada, tornavam o palacete, como um todo, pouco fluido.

Essa era a imagem do antigo Liceu de Artes e Ofícios, a conhecida Pinacoteca do Estado de São Paulo, quando o edifício estava prestes a completar um século. Mesmo ainda belo, com suas concepções artísticas que remontam ao fim do século 18 e início do século 19, tantos acabamentos e estruturas por anos mal utilizados transformaram o palacete em um local degradado, com sua história e sua arte esquecidas pela população.

Assim como a Pinacoteca, tantas outras construções e obras artísticas espalhadas pelo país, embora tombadas como patrimônio público pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, o CONDEPHAAT, experimentam uma desqualificação permanente por conta de deterioração natural, do mau uso ou até mesmo de seu total esquecimento.

Em 1993, o então diretor da Pinacoteca, Emanoel Araújo, juntamente com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha voltaram os olhos para esse imponente mas degradado edifício e promoveram sua revitalização. Mais do que uma reforma ou reestruturação da arquitetura original, revitalizar é trazer vida nova, resgatar do limbo antigas e expressivas manifestações arquitetônicas ou paisagísticas; transformá-las em singular exemplo de cultura e arte a fim de preservar uma identidade cultural, de modo que a sociedade não perca sua identificação com a cidade onde vive; é criar nova finalidade para o espaço.

Marcelo Ferraz, arquiteto e sócio da Brasil Arquitetura, afirma que o processo de revitalização de uma edificação tem dubiedades, pois possui mais de um objetivo. “Não adianda refazer cuidadosamente uma construção sem que ela possa ter um uso. Não resolve também destruir totalmente o imóvel que existia para atender a uma necessidade atual. Revitalizar é restaurar, incutindo interferências contemporâneas, para se atingir o objetivo de utilizar esse ambiente, associando-o à sua memória”, pontua o arquiteto.

Para se chegar a esse resultado tão temperado de história e cultura, são ressaltados valores da historicidade da construção, recuperando, assim, projetos paisagísticos e obras de arte; e são estudados documentos históricos para se descobrir quais eram as exatas características de cada conjunto arquitetônico, sua função e concepção. “Cada intervenção demanda ajuda de diferentes profissionais. Mas cabe a nós arquitetos a sensibilidade de perceber se quem nos ajudará mais será um artista plástico, um historiador ou um filósofo”, comenta Ferraz.

Também devem ser previstas nos projetos as necessidades atuais, relacionadas à sustentabilidade. Fazem parte dessa lista recursos para a diminuição dos consumos de água e de energia e a criação de acessibilidade para toda a população. “Deve-se pensar na criação de rampas e elevadores para cadeirantes e pessoas idosas e em formas de melhoria do transporte público nas proximidades do patrimônio”, explica o especialista.

Exemplos como o da Pinacoteca não são tão distantes da realidade. Outro caso que deu certo foi a da Praça da Liberdade, considerada a mais antiga praça pública da capital mineira. Sua estrutura que mistura vários estilos é o retrato vivo da evolução da cidade. Entre as construções existentes depara-se com os estilos neoclássico, art-déco da década de 1940, moderno das décadas de 1950 e 1960 e até o pós-moderno de 1980.

Se antes da revitalização, iniciada em 1991, e do projeto Circuito Cultural o Palacete e seu entorno só recebiam funcionários públicos que trabalhavam na sede do governo de Minas Gerais, com pouquíssimo movimento à noite, agora “há visitas de escolas e do público em geral”, comenta a arquiteta responsável pelo Circuito Cultural, Jô Vasconcellos. A praça não era tão degradada, já que utilizada pelo poder executivo, porém, foi a valorização de seu espaço que trouxe à luz belas contruções.

Cada prédio restaurado contou com uma dupla de arquiteto e restaurador já experientes nessa área. Além disso, tudo foi decidido junto ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de MG, o IEPHA, que garantiu que as obras fossem conduzidas segundo os critérios definidos para monumentos tombados. “Durante todos esses anos de uso, os prédios foram sofrendo intervenções sem critérios. Paredes derrubadas para aumentar espaço e pintadas sem diagnóstico das consequências. Nós fizemos a restauração completa dentro de todas as normas e todo o processpo de modernização e adequação seguiu a proposta arquitetônica de resgate de antigos espaços perdidos”, relata Vasconcellos.

Porém, para sua efetiva utilização, mais do que abrir as portas dos palacetes, o governo do Estado desenvolveu o projeto Circuito Cultural que consiste em transformar a Praça da Liberdade e suas construções em um rico conjunto de cultura e informação, composto por acervos históricos, artísticos e temáticos; centros culturais interativos; biblioteca e espaços para oficinas, cursos e ateliês abertos; além de planetário, cafeterias, restaurantes e lojas. “Nossa intenção é que esse polo cultural se transforme no lugar favorito de todos os moradores de Belo Horizonte e até do Estado, comenta a arquiteta e coordenadora do projeto. Segundo ela, 60% do circuito já está em plena operação e a intenção é que mais auditórios, cafés e cyber lounges sejam inaugurados em meados de 2010. “Na totalidade, o projeto será finalizado, em âmbito nacional, em meados de 2011”, pontua.

Mas nem tudo são flores quando se fala em revitalizar projetos arquitetônicos. Existem casos em que o imóvel é utilizado indevidamente por populações carentes, mas que vivem no local por décadas. No tradicional bairro do Bixiga, centro de São Paulo, existe a Vila Itororó. Criada entre os anos de 1922 e 1929, quando o comerciante português Francisco de Castro resolveu instalar-se na capital paulista e construir o palacete, essa vila parece ter sido inspirada na Semana de Arte Moderna, que acontecia ali perto. Sem um estilo arquitetônico definido, o projeto utilizou artigos da demolição do antigo Teatro São José, porém, suas novas estruturas ganharam ares do barroco, do clássico e ainda do neoclássico, sem qualquer preocupação com a coerência dos estilos.

Se na época da construção o local era considerado “fino”, em poucos anos transformou-se em cortiço e, já em 1984, vivia um processo de degradação acentuada. O tombamento, em 1983, que viria para salvar a vila de ruir, acabou gerando uma enorme dor de cabeça, já que os moradores não aceitam deixar a vila. Com isso, é formado um impasse: a única maneira de intervir e dar uma nova destinação ao patrimônio seria desalojar uma comunidade inteira, assentada no local há mais de quatro décadas, o que significa falar de um enraizamento cultural e afetivo, fora as questões de ordens econômica e social.

Segundo a assessoria da Prefeitura de São Paulo, esse impasse será resolvido e, ainda no primeiro semestre de 2011, será iniciada a aplicação do projeto que está em fase final de elaboração e prevê a transformação do espaço em um centro cultural, com museus, áreas para shows e convivência cultural, que ficará sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura.

É preciso lembrar que evocar o antigo não significa elevá-lo à protagonista. Revitalizar é adotar a correta postura de uma prática arquitetônica que testemunha o preexistente, respeita-o, mas aplica-o a atual necessidade. Assim como faziam os romanos, que sobrepunham suas casas às já existentes, sem destruir as antigas, em uma atitude de respeito e admiração.

Luíza Costa / blog Acesso

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3 Respostas para “Antigas estruturas, novos horizontes”

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  3. Obelidimmemia disse:

    Very Interesting!
    Thank You!

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