04

Notícias_03.10

O produtor cultural do século 21

Por Blog Acesso

 

Há cerca de dez anos, cultura no Brasil se escrevia com inicial minúscula, quase como sinônimo de manifestação folclórica. Estava presente nos planos de governo mas, na maior parte das vezes, como uma pasta obrigatória com a qual não se sabia o que fazer. Ainda não chegamos ao ponto ideal em que a cultura ganha o mesmo status da economia e da comunicação. No entanto, o Brasil deu um grande salto no momento em que passou a tratar a cultura como um ativo que pode, e deve, contribuir para o desenvolvimento socioeconômico nacional.

Pode-se dizer que os ventos de mudança começam a soprar – como uma brisa, é bem verdade – com a implantação da Lei Rouanet, em 1995. Se antes um produtor cultural era tratado, de modo pejorativo, como um “faz tudo” da cultura ou, pior, como um desocupado, a partir da Lei ele passa a ter sua existência reconhecida, como um profissional necessário para estabelecer elos entre público e arte. Com a Lei, aumenta a demanda pelos serviços desse profissional e, com a demanda, os primeiros sinais de fragilidade de sua formação. Surge, então, oficializando e legitimando a profissão no Brasil, os primeiros cursos de graduação: o primeiro, em 1995, na Federal Fluminense (UFF-RJ); e o segundo, em 1996, na Federal da Bahia (UFBA). Esses cursos representaram a sistematização dos conhecimentos inerentes ao setor.

Hoje, passados 15 anos da inauguração do primeiro curso de graduação na área e, 9 anos, de seu reconhecimento pelo MEC, o setor mescla profissionais graduados e empíricos, de gerações diferentes, que passam a conviver em meio aos novos desafios.

Há 20 anos atuando como produtora cultural, Luiza Pires, sócia da Liga, empresa de consultoria e gestão cultural, tem um currículo invejável. Entre outros cargos, a Bacharel em História pela UFRGS foi sócia da Cult Assessoria e Projetos Culturais (1998); coordenadora administrativa da Casa de Cultura Mário Quintana (1999/2001); assessora especial da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul; coordenadora Administrativa do Santander Cultural (2001/2002); e coordenadora Administrativa do Projeto: III Fórum Social Mundial/Cultural (2003). Mas o currículo não mostra os percalços que Luiza encontrou pelo caminho. “Quando comecei a trabalhar, a profissão não era reconhecida e o produtor era bastante depreciado. Mas há cerca de sete anos, o cenário mudou muito. Acho que a formação universitária instrumentaliza os profissionais e impede um contingente de despreparados. O próprio mercado passou a ter condições de peneirar os mais capacitados”, diz Pires.

A produtora também detecta mudanças no dia-a-dia da profissão. Ela relembra que, em uma época em que a captação de recursos se dava, prioritariamente, pelas redes de relacionamentos e pelo conhecimento privilegiado, a lei de incentivo federal era pouco utilizada no Rio Grande do Sul, enquanto as leis estaduais abundavam. “Há cerca de 8 anos que a lei estadual não é usada e o Sul é totalmente dependente da lei federal. Ainda mais porque enquanto o número de editais promovidos pelo MinC aumenta, o de editais privados escasseia. O lado ruim desta história é que os produtores culturais acabam cumprindo o papel de produtores e de captadores”, explica a produtora.

Foi justamente esse cenário que levou o administrador e produtor gaúcho Alê Barreto, conhecido na rede como produtor independente, a se mudar para o Rio de Janeiro, em 2007. Ele queria experimentar as diversas possibilidades da profissão ao invés de ficar restrito à estruturação de projetos para captação em leis de incentivo. “Trabalhar apenas com a Lei Rouanet gera um contexto muito frágil em termos de sustentabilidade. Além do que, as leis de incentivo dão a falsa sensação de que o produtor cultural é aquele que formata projetos, quando ele é o responsável por criar pontes, estabelecer diálogos entre a criação artística e o público. Produtor cultural não é um mero formatador de projeto, mas também não é faz tudo”, afirma Barreto.

O produtor gaúcho, que atua na área desde os 29 anos, diz que começou junto com o Governo Lula, em 2003, e que viu a profissão crescer junto com as ações do Ministério da Cultura. “A cultura que estava sempre entre os últimos orçamentos da União, com a atual gestão ganhou uma projeção tão interessante quanto a de outros ministérios. O olhar mudou e entraram na pauta dos debates temas como desenvolvimento, economia e tecnologia. Podemos contar até com séries históricas de pesquisas importantes, como as do IPEA, do IBGE e da Casa de Rui Barbosa”, opina o produtor. Para ele,a questão da formação universitária também tem contribuído para a profissionalização da área. No entanto, alerta para a necessidade de diversificação do olhar e das experiências. “Os cursos de produção cultural estão atrelados às ciências da comunicação, o que cria um contexto único, quando existem outros caminhos para a leitura da cultura, que vão da antropologia à economia”.

Para dar vazão às suas ideias e estabelecer um diálogo com outros produtores, Alê criou em seu blog a Rede de Notícias Culturais Sustentáveis. “Falta entrosamento entre os produtores culturais que enxergam uns aos outros como concorrentes. Com essa iniciativa quero estimular a cooperação e a troca de experiências. O mecanismo é simples mas, se der certo, poderá ser uma fonte de informação útil a todos os elos da cadeia”, explica. Para ele, entre os desafios que o produtor do século 21 tem a enfrentar está a necessidade de conexão, seja com seus pares ou com profissionais de outras áreas. “Acho que o grande desafio para o produtor cultural, hoje, seria pensar a sua profissão mais conectada com aquelas que a tangenciam. O que significa transitar entre jornalistas, profissionais de informação, economistas. Enfim, perceber que o trabalho é amplo e que ele pode atuar em várias frentes”, conclui Barreto.

Priscila Fernandes / blog Acesso

Acesso pergunta: na sua opinião, qual o perfil do produtor cultural do século 21?

 

 
1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars
Loading ... Loading ...
Comentários > 14 Compartilhe
 

14 Respostas para “O produtor cultural do século 21”

  1. Alê Barreto disse:

    Equipe do Blog Acesso:

    Muito obrigado pela oportunidade de participar desta matéria.
    Parabéns pelo excelente conteúdo e serviços que vocês oferecem no blog Acesso.

    Um abraço,

    Alê Barreto
    Produtor Cultural Independente

  2. FUANO DE TAL disse:

    acho que o grande caminho e ser menos teórico e mais prático!!!!!!!!!!!

  3. Telma Queiroz disse:

    Penso que a criatividade e muita agilidade serão as caratacteristicas mais necessárias no século 21 tão abarrotado de novidades tecnologicas.

    Parabéns aos bravos produtores deste País

    Telma
    100 Jabá web rádio
    Música Independente para Ouvidos Independentes

  4. Pedro Luiz disse:

    Grato pela fonte e pela ponte, é de trabalhos como este que precisamos, descortinamos véus e alimentamos a saudavel meditação que ciência alinha com a praxis. Saudações culturais ao Grupo de trabalho!

  5. Júlio Saggin disse:

    Agradeço e parabenizo a iniciativa.
    Mas como não ver no outro, um concorrente? Trabalhando na área a 6 anos, hoje sinto falta da graduação. Perdi oportunidades pela visão do “faz de tudo”, mas venho buscando novas possibilidades para me manter no meio. Outra coisa que faz falta é a troca de experiências.
    O que na minha opinião, é a fonte do conhecimento!

    julio saggin (blogspot.com)
    produtor executivo
    e agente cultural

  6. Simone Castro disse:

    Acredito que o perfil do produtor cultural no século XXI é do profissional engajado, criativo, solidário e acima de tudo que compartilha seu conhecimento. Adorei a iniciativa do Alê Barreto, também acredito que o profissional do futuro não pode ter medo de concorrência. Parabéns pela matéria!

  7. Aldo Valentim disse:

    Olá, interessante a matéria.
    No entanto considero pertinente algumas observações:
    a) por estar, na maioria das vezes atrelado ao trabalho artístico, a atuação e remuneração do gestor na área cultural sofre com todos os problemas relacionados aos setores artísticos: desregulamentação total do setores, imprecisão de terrirótio de atuação profissional, trabalho sazonal, baixa remuneração e na maioria das vezes remuneração condicionada ao sucesso de um projeto.
    b) No poder público os espaços aos gestores profissionais são raros, pois muitos cargos são preenchidos por profissionais concursados provenientes de outros campos do saber que não o artístico e/ou cultural, os demais cargos sao preenchidos com indicações políticas/partidárias, outros cargos ainda preenchido por artistas que não tem espaço em seu “mercado principal” e vão para o poder público gerenciar projetos governamentais.
    c) na esfera privada é onde o gestor tem seu espaço mais sólido, mas mesmo assim enfrentando todo o tipo de dificuldade para atuar em um mercado de alto risco, sem possibilidade de crédito, políticas de alavancagem de negócio, etc.

    Atuo há 10 anos no setor cultural e agora neste ano concluo meu mestrado em artes na unicamp, com pesquisa dedicada a gestao cultural. Com a raridade de vagas de emprego e bons trabalhos que recompense a formação e a alta capacitação adquirida ao longo desses ultimos anos, venho repensando essa questão de ser ou nao gestor cultural.

    Creio que o grande desafio para o gestor ou produtor cultural no século XXI é o de conquistar um espaço que seja seu no mercado, regulamentando e delimitando como as demais áreas específicas fazem (administradores, engenheiros, advogados, etc). só assim valerá a pena tanto esforço e estudo para atuar em uma area linda, mas frágil como a cultural.

  8. João Moura disse:

    Prezado (a) Produtor(a), sou músico compositor, e tenho um trabalho instrumental diversificado, onde trafego por todos os ritimos e estilos (musica de qualidede), e tenho pretenção de realizar show em Maceio e grandes cidades do Estado das Alagoas, pra conhecer melhor o meu trabalho nos links abaixo:

    http://www.joaomoura.musicblog.com.br

    http://www.youtube.com/watch?v=ennu3Xzkz
    http://www.youtube.com/watch?v=S_EO-cIEiGY
    http://www.youtube.com/watch?v=BXzP4-MdAS8
    http://www.youtube.com/watch?v=p9WCd64C0TM
    http://www.youtube.com/watch?v=p9WCd64C0TM
    http://www.youtube.com/watch?v=jPBXx-s2U4Q

    gostaria de realizar apresentação em qualquer lugar seja aberto ou fechado.

    aguardo retorno

    João Moura
    79-9972-4802

  9. João Moura disse:

    Prezado (a) Produtor(a), sou músico compositor, e tenho um trabalho instrumental diversificado, onde trafego por todos os ritimos e estilos (musica de qualidede), e tenho pretenção de realizar show em Maceio e grandes cidades do Estado das Alagoas, pra conhecer melhor o meu trabalho nos links abaixo:
    http://www.youtube.com/watch?v=ennu3Xzkz
    http://www.youtube.com/watch?v=BXzP4-MdAS8
    http://www.youtube.com/watch?v=p9WCd64C0TM

  10. Somos parceiros e não concorrentes!

  11. jasmini disse:

    gostei do site …interessante…..

  12. Karol Linne disse:

    Adorei, usarei como mateiral de pesquisa para um grupo de alunos aspirantes em eventos! simplesmente ótimo conteudo.
    Fica aqui a dica, CELIO TURINO, pesquisem sobre esse politico honsto, humilde, verdadeiro!!! Está desbravando a SELVA CULTURAL BRASILEIRA com o programa CULTURA VIVA!!!
    Pesquisem, leiam a respeito! Vale a pena! SIM, EXISTEM POLITICOS HONESTOS!!! =)

  13. JOSE HAMILTON disse:

    E MUITO BOM ESSE TRABALHO COMO VEM SENDO ELABORADO TEM MUITAS COISAS
    COM BASTTANTE CMTEUDO PARA O PRODUTOR.( PARABEMS )

  14. Mirna Rosário disse:

    Tenho atuado como produtora cultural há algum tempo em meu Estado. Mas ainda hoje não sei como cotar a remuneração de meus serviços. Como faço para saber os valores adotados de acordo com cada serviço oferecido por essa categoria? Por exemplo, qual o valor adotado para escrita e formatação de um projeto sociocultural? E a organização de uma vernissage, quanto seria? Muitas dúvidas… Será que vocês podem me ajudar.

Deixe uma resposta


 

 



Licença Creative Commons

O conteúdo da página "O produtor cultural do século 21", disponibilizado no website Acesso, o blog da democratização cultural está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.