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Notícias_01.10

Biblioteca Nacional: 2km de acervo por restaurar

Por Blog Acesso

 

crédito: Biblioteca Nacional DigitalImagine um lugar onde os livros mais antigos, impedidos de falar por velhice, traça, putrefação ou mera inatividade estão arranjados em armazéns, em prateleiras intermináveis que chegam a somar 2,1km de extensão. Um lugar em que os séculos coexistem, lado-a-lado, sem interrogações ou cobranças por seus atos. Estão lá representados os séculos 15,16,17,18 e 19. Embora pareça, essa não é a fictícia Biblioteca de Babel de Borges, mas bem poderia ser, dado seu caráter de baú de tesouros empoeirados, prestes a falar.

O local de que estamos falando trata-se da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde quatro armazéns guardam cerca de 9 milhões de itens em estado de total fragilidade. Jogos à parte, essa biblioteca mantém um vínculo importante com a de Borges: é tratada como um organismo vivo, e seus livros como entidades. E como tudo o que está vivo, também a biblioteca de obras raras está fadada a lutar contra a morte. Mas aqui, sabemos que o patrocínio funciona como um elixir poderoso capaz de salvar das cinzas testemunhos importantes da história da humanidade. Prova disso é o Projeto Fênix, desenvolvido pela Divisão de Obras Raras com o intuito de restaurar os exemplares de seu catálogo de maior valor para a pesquisa.

No bojo do Projeto estão os objetivos de “disponibilizar para consulta, novamente, as obras cujo avançado estado de deterioração física inviabiliza seu manuseio; facilitar a pesquisa, garantindo o fluxo evolutivo da ciência, pelo acesso material e intelectual a itens fundamentais do conhecimento registrado e organizado; promover o acesso eletrônico, local e à distância, através de imagem digital da íntegra dos títulos mais raros do conjunto; garantir o direito de acesso à informação registrada e difundida, como recurso de salvaguarda da memória mundial”.

Em atuação desde fevereiro de 2009, o Projeto Fênix, completa um ano de restauro com um patrocínio do BNDES, no valor de R$ 374.778,00. No entanto, a ação, que tem como meta higienizar um dos armazéns e restaurar 150 obras, não cobre nem um décimo dos dois quilômetros e cem metros de prateleiras de livros do acervo, que agonizam à espera de ajuda. Entre eles, exemplares raros dos primórdios das tipografias mundial (séculos 15 a 18) e nacional (século 19).

Na lista dos felizardos, o primeiro a ser restaurado foi o Diuina Proportione (1514), de Luca Pacioli, com figuras de sólidos geométricos desenhadas por Leonardo da Vinci. O título, assim como os outros 149 congraçados, passou também por um processo de documentação, chamado Sistema Híbrido de Preservação, em que foi recuperado, microfilmado, digitalizado e disponibilizado ao público via internet. O livro de Luca Pacioli já está na rede, no site da Biblioteca Nacional Digital.

“Muitos pesquisadores da área não sabiam que a Biblioteca Nacional possuía um exemplar do Diuina Proportione, cujo valor no mercado é inestimável. Como esta, temos outras preciosidades. Algumas que, inclusive, só estamos descobrindo a verdadeira face agora com a higienização. O processo permitiu a redescoberta de belíssimas encadernações de veludo e couro que pretendemos trazer a público com uma exposição sobre encadernações luxuosas, que revelam o trabalho artístico do encadernador”, explica Ana Virgínia Pinheiro, Bibliotecária Chefe da Divisão de Obras Raras. As exposições fazem parte de um projeto maior de difusão das obras raras e estreitamento do contato com o público, principalmente o pesquisador. Nesse sentido, está em fase de montagem uma exposição sobre esportes, que foi sugerida por um professor de Educação Física da UFRJ.

Outro tema que deve merecer curadoria é o Inferno, título que nomeia uma coleção de livros considerados “malditos” ao longo dos séculos, censurados ou escondidos, e que também está na fila de espera por patrocínio para o restauro. A coleção tem raridades como Mein Kampf, de autoria de Adolf Hitler; tomos pornográficos de diversos séculos; além dos censurados pela ditadura militar brasileira. “Na época da censura no Brasil, bibliotecários transferiram diversos títulos de sua seção original para a Divisão de Obras Raras com o intuito de salvá-los do desaparecimento”, conta Ana Virgínia Pinheiros.

Tratados como entidades, os livros que correram até mesmo o risco de desaparecer no período da repressão – como desapareceram tantas pessoas que pensavam e agiam diferente das regras impostas – também correm risco de morte. Cemitério é o nome de outra coleção de destaque, que abriga os exemplares decrépitos, putrefados e que, por obra do tempo, de materiais frágeis e do mau uso, acabaram “blocados”, ou seja, tiveram suas páginas coladas umas as outras, metamorfoseando-se de tijolo. “A deterioração é tamanha que tivemos de alojar estas obras em um cemitério, dando-lhes uma morte digna, com a expectativa de que o processo de restauro evolua e consiga recuperá-las um dia. Isso pode parecer estranho, mas os livros restaurados hoje foram condenados há dez anos. E o Brasil só acordou para o processo de restauro em meados dos anos 90, quando ‘descobriu’ o acervo da Biblioteca Nacional ”, afirma a bibliotecária.

“A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável”. (BORGES, Biblioteca de Babel)

Priscila Fernandes/blog Acesso

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Um comentário para “Biblioteca Nacional: 2km de acervo por restaurar”

  1. mario b. garcia disse:

    evidente que gostaria de receber proposta : adote um li vro para restauro adote este ou aquele , custa tanto, seu merito sera este.Fica sujestao.Bruno

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