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Notícias_11.09

Segundo Encontro de Artes Cênicas do Cerrado

Por Blog Acesso

 

Entre os dias 17 e 21 de novembro, a cidade de Uberlândia (MG) recebeu o Segundo Encontro de Artes Cênicas do Cerrado, sob o tema "Ofício: tradição, sustento e renovação". O evento, que teve o apoio do Blog Acesso em sua comunicação, foi realizado pelo Grupontapé de Teatro e pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

O Encontro permitiu aos participantes – vindos de diversos lugares do Brasil – reflexões sobre o exercício do ofício cênico na atualidade, baseadas nas relações entre a tradição e a renovação, presentes na cena contemporânea. Os diálogos foram permeados não só pelas questões estéticas, mas pelos mecanismos e estruturas de viabilização e manutenção de grupos e companhias.

Magdalena Rodrigues, atriz e presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de Minas Gerais (SATED-MG), destacou o significado da arte para a sociedade e defendeu a mobilização política dos artistas. Ela lembrou que hoje, além de desenvolver sua arte, os profissionais são obrigados a fazer o papel de advogados e gestores culturais quando não podem pagar pela captação de recursos para suas montagens.

"A arte deve ser oferecida de graça?", perguntou, antes de completar: "Acho que essa cultura deve ser repensada. Vamos dar acesso, mas temos que viabilizar também nosso acesso à profissão, nosso direito de viver do ofício". A discussão foi parte da palestra “Carreira e produção artística: profissionalismo e viabilização”, ministrada pela atriz.

No debate "Experiências entre tradição e renovação em processos contemporâneos de pesquisa teatral", Fernando Neves, pesquisador, diretor de teatro e descendente de família circense, falou do acesso sob o ponto de vista da linguagem: "No circo, o ator tem que dar o que a plateia quer. Se alguma ação não gera reação ou desagrada, é alterada no meio do espetáculo, que depende do olhar de quem assiste. O circo só depende de público. Se não tem, acaba".

Incorporar essa característica, além de gerar reflexão e apresentar coisas novas são mecanismos importantes para a formação de platéia no teatro. Esse foi um dos pontos de vista defendidos pela atriz Cibele Forjaz, diretora teatral e professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Na Cia. Livre de Teatro, em São Paulo, onde Cibele é diretora, a proposta é "pague quanto quiser". Para ela, o formato faz parte da formação de público, pois permite ao participante “entender o valor” do que o artista faz. Sobre a polêmica da meia-entrada, ela compara o mercado de arte ao setor automobilístico: "Se o governo fomenta descontos no ingresso, deve complementar. Por que os artistas pagam o restante? Se um carro é vendido com desconto, o governo compensa. A arte é o alimento da alma. É preciso mudar essa cultura que diz, nas entrelinhas, que a cultura não tem valor".

O presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, Ney Piacentini, fez palestra sobre sua experiência com o cooperativismo e defendeu formas alternativas de atrair espectadores, citando a Cia do Latão, da qual faz parte. "Conseguimos trazer os universitários, que estavam afastados do teatro, para nossa plateia", afirmou. Quem faz arte sabe que não vai enriquecer, afirmou, lembrando que a disputa por fundos públicos é fundamental para dar condições mais dignas de trabalho aos atores. "Apesar disso, o interesse público deve ser prioridade. Será que não é melhor ganhar menos e chegar até mais gente?", perguntou.

Ney Piacentini afirmou ainda que, por enquanto, os recursos disponíveis para a arte no Brasil não chegam ao público. E fez uma comparação: "O cinema resolveu o problema da produção, mas os filmes ainda são vistos por poucos brasileiros". A falta de solução para a questão do acesso, segundo o ator, significa prejuízo para todos: "Se o país tem educação de qualidade, saúde, cultura e emprego, a Nação economiza e todos ganham".

Na mesa "Do cerrado para o mundo: rumos da cena contemporânea", a bailarina Sonia Sobral, gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural, mediou uma conversa entre os dançarinos Fernanda Bevilaqua, Vanilton Lakka e Wagner Schwartz.

Fernanda, que iniciou o debate, apresenta há dois anos o espetáculo "Venda" com a “Uai Q Dança Cia.”. No formato, o espectador escolhe o estilo e, pagando R$ 1,00, pode assistir alguns minutos de dança. Para Fernanda, esse modelo de apresentação tem muito a ver com os tempos atuais, em que a questão de mercado se tornou muito forte para os artistas. "Hoje, temos que pensar nisso e viabilizar formas de sustento, além de criar", afirmou.

Vanilton Lakka lembrou que o mercado de arte não tem dimensões industriais e que, por isso, tem sua lógica própria e suas próprias distorções: "Muita gente diz que vive da dança, mas na verdade se sustenta dando aulas, mais do que se apresentando. Algo está em desequilíbrio nesse caso".

Wagner Schwartz, que mora em Paris e participou do debate por meio de webcam, ressaltou a importância do público para quem faz arte. "Aqui na França, os artistas reclamam das mesmas coisas, como circulação da arte e sobrevivência dos grupos. A diferença é que aqui todos têm acesso, todos têm educação de qualidade e podem assistir ao que quiserem”, comparou.

Ao fim do debate, Sonia Sobral lembrou de grupos e movimentos antes desconhecidos e que hoje fazem parte da cena cultural: "Muitas vezes, artistas e produtores articulam as coisas de tal maneira que conseguem gerar, mover, transformar e multiplicar, incluindo um grupo antes invisível na agenda nacional". Ela destacou dois casos que considera exemplares: A Casa da Ribeira, em Fortaleza (CE) e o Sarau Vila Fundão, no Capão Redondo, em São Paulo (SP). "Ver esse tipo de iniciativa dar certo me move a trabalhar com gestão cultural", afirmou.

Para saber um pouco mais sobre o Encontro de Artes Cênicas do Cerrado, o site do evento é uma ótima opção. A reportagem oficial da edição de 2009 ainda não foi ao ar, mas é possível conferir entrevistas com diversos palestrantes, além de vídeos sobre iniciativas que foram temas dos debates.

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Um comentário para “Segundo Encontro de Artes Cênicas do Cerrado”

  1. Cumprimento-os pela iniciativa e solidarizo com as questões levantadas, desde que a política de “que vença o melhor” não seja fomentada. A cultura brasileira, desde que começou a guerra pela captação de fundo públicos, tem gerado uma verdadeira briga de foice dentro da cisterna. A cultura brasileira está indo cada vez para o mundo da burocracia, inibindo ações expontâneas e falsos sorrisos amarelos de ‘vitórias’, porque nem sempre os que deveriam ter vencidos; venceram de fato.

    Abços a todos e meus cumprimentos.
    Demétrius COtta
    Sete Lagoas – MG

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