Neste artigo, Chico Pelúcio, ator, diretor de teatro e integrante do Grupo Galpão, de Minas Gerais, fala sobre democratização, fortalecimento e sustentabilidade do teatro. Ele usa a sua experiência nas artes cênicas e a trajetória no Galpão para fortalecer seu texto com argumentos sólidos, contextualizando-os na realidade social e econômica vivida nos últimos anos do Brasil.
A valorização do teatro coletivo: a experiência do Galpão Cine Horto
Por Chico Pelúcio
Como em todo fim de ano, na virada do milênio, o “mundo” prometeu parar de fumar, emagrecer uns quilinhos, ter tempo para si próprio e para seus filhos, amar a África como a si mesmo, privilegiar a qualidade e não a quantidade, traduzir em trabalho e comida parte dos ganhos da especulação financeira, desaquecer o planeta, cuidar da água como se cuida do carro novo, tirar o filtro escuro dos vidros do carro para ver e ser visto, aprender a ler Fernando Pessoa e dormir com os dois olhos sem medo de bombas.
No Brasil, além dessas prometidas mudanças, apostamos no fim da corrupção, na hora e vez do bom senso e da justiça, na hora e vez de um país onde os interesses coletivos estivessem acima da perpetuação espúria do poder dos parlamentares, que haveria mais investimentos na saúde do Estado do que na venda de sua falsa imagem, que a arte, cultura e educação seriam tratadas como fundamentais na construção da nossa NAÇÃO BRASILEIRA.
Nem dez anos se passaram e nossas expectativas caíram na vala comum da desesperança. O Brasil, há muito proclamado o país do futuro, esconde debaixo da euforia econômica a podridão ética dos poderes. Como se o fim justificasse todos os meios, mesmo que iguais aos dos períodos mais obscuros da história deste país. Com os mesmos protagonistas e com as mesmas práticas, apesar de raras exceções.
Devíamos aprender com a arte, área em que o “como” fazer é tão importante quanto o “quê” fazer. Se atentos, veríamos que é na cultura que vem se experimentando caminhos mais interessantes para se inventar um país digno. Um Brasil de muitas culturas que, no balanço da “sururuca”, misturou cores e almas, criando um arco-íris único de tons e sobre-tons especiais, unindo o Oiapoque ao Chuí. Nessa extensão continental podemos vivenciar as mais criativas formas de sobrevivência e de manifestações simbólicas dos diferentes povos.
Perceber essas particularidades e, a partir delas, elaborar nosso “modo de vida e de organização”, nas diversas esferas da sociedade, me parece razoável para encontrarmos um caminho próprio. “Antropofagiar” os pós – e os próprios – modernistas, mesmo nos dias de hoje, pode ter sentido se incluímos nessa refeição as atuais e diferentes formas de organização e manifestações culturais do Brasil continente.
A busca por novos caminhos
E foi no lusco-fusco do velho para o novo milênio que o teatro apontou uma volta fortalecida e sistematizada aos princípios coletivos de criação e de interlocução com a sociedade. Ao se opor à era dos encenadores, do teatro corporal, do individualismo, do “salve-se quem puder” e do modelo “winner” de ser, permitiu o florescimento de grupos e processos em que, na horizontalidade da construção, obras cênicas buscaram novos caminhos.
A necessidade de falar do contemporâneo leva, entre outras coisas, ao aparecimento de uma dramaturgia presente na sala de ensaio, compartilhando e dividindo a escrita com o ator em cena, com o diretor, com o iluminador, com o cenógrafo, figurinista, enfim, com todas as pontas de criação, num processo simultâneo de elaboração de uma peça.
Não se trata de “uma casa da mãe Joana” onde ninguém manda. O que há é uma abertura para que sugestões e questões sejam levantadas. Entretanto, a organização desse material fica a cargo do responsável de cada segmento e que assina a obra como tal. Dessa forma, o que se tem experimentado, ao final, é um sentimento autoral, colaborativo e uma apropriação profunda dos conceitos do espetáculo por toda a equipe.
Além disso, seja por necessidade ideológica ou de sobrevivência, muitos grupos têm buscado formas de interlocução com a sociedade que vão além dos seus próprios espetáculos. Para se alcançar tais objetivos, tem sido fundamental que cada grupo tenha sua própria sede de trabalho. Esses espaços, normalmente localizados fora das áreas centrais das cidades, possibilitam, dentre outras coisas, a consolidação dos grupos, melhor resultado artístico, descentralização e democratização do teatro, humanização do entorno e oportunidade de formação para os moradores dos bairros. E, principalmente, um diálogo direto com essas populações, valorizando e articulando seus bens simbólicos.
Foi nessa onda que surgiu o Galpão Cine Horto, no final dos anos 90, com a intenção de ser um centro cultural vivo, dinâmico e cheio de gente e idéias. Com claro recorte no teatro e suas derivações, buscamos, antes de tudo, abrir nosso olhar e sensibilidade para estabelecer de fato um diálogo com as demandas artísticas, com as novas tendências e, através do conceito coletivo que orienta as ações do Grupo Galpão, implantar diversos projetos de formação, difusão, fomento e pesquisa teatral.
Ao longo dos onze anos de existência da Casa, descobrimos com Guimarães Rosa algo assim: a verdade não se revela na saída e nem na chegada, mas no meio da travessia. Quero dizer, tínhamos um ponto de partida, mas a travessia foi aos poucos reinventando os caminhos. Nossa determinação, nossa busca permanente de aperfeiçoamento e a profissionalização foram fundamentais para alcançarmos certo frescor nos projetos, o que só foi possível na medida em que abrimos nossos radares para fora, para a rua, para a praça mais próxima, para o mundo.
Nunca tivemos a pretensão de inventar a roda e sempre que podemos buscamos aprender com quem sabe mais. E esse encontro de saberes, de necessidades e de realidades quase sempre resulta em uma terceira possibilidade com cor, cheiro e modo de fazer próprios, com a nossa identidade e correspondente à nossa realidade, mas com sotaque do mundo, do além mar e montanhas. E, à medida que esses encontros acontecem, outros tantos horizontes são revelados e novas demandas surgem.
Assim, através dessas trocas e parcerias, em apenas 11 anos, o Galpão Cine Horto ocupou um lugar importante no universo teatral contemporâneo de Minas e se tornou referência de gestão e produção em todo o país. Em parceria com empresas privadas, públicas e com órgãos governamentais, por intermédio das leis de incentivo à cultura estadual e federal, o Galpão Cine Horto tem exercido o papel de elo entre essas instituições, artistas e grupos, prestando um serviço de relevância pública formando redes bastante interessantes.
Deste modo, seja no percurso das viagens do Grupo Galpão pelo Brasil, seja no desenvolvimento das ações do Galpão Cine Horto, canais de comunicação importantes para o fortalecimento da sustentabilidade e da criação no fazer teatral têm sido estabelecidos.
Esse aprendizado me leva a afirmar que é imprescindível a um projeto de gestão na área cultural a abertura para o permanente aperfeiçoamento das ações a serem executadas. É importante que haja sempre um olhar transformador, porém cuidadoso e respeitoso capaz de ler a realidade como tal e o que nela está latente, mas ainda não revelado.
Sem que se conheça o teor das demandas próprias da sociedade, corre-se o risco de se produzir projetos de gabinete, capazes de gerar forças contrárias e paralisar as ações já em curso ao invés de incentivá-las. O resultado é a substituição do que é genuíno e próprio da sociedade por diretrizes equivocadas. Eu diria que a pior combinação é quando um mau gestor se rende exclusivamente aos anseios do mercado e, como camaleão, muda fácil de projeto, de cor e convicção para ganhar algum dinheiro público.
Na área cultural isso se torna ainda mais grave e evidente. São raros os departamentos de marketing das empresas que possuem esse entendimento. E poucas são as empresas que têm uma atuação sólida e consequente que contribui para a construção sadia de suas comunidades. Sequer conseguem entender que, no mínimo, a cultura proporciona melhores consumidores.
E se considerarmos que os artistas e os gestores culturais são os principais interessados nesse embate secular e universal, resta a eles capitanear ações que provoquem mudanças de paradigmas dentro das instituições com as quais mantêm necessárias relações de trabalho.
Como em qualquer segmento prioritário para a sociedade, também na cultura o poder público, por dever constitucional, deveria ter papel fundamental na organização do setor. Assim, acredito que seria o seu papel promover desde a discussão e elaboração de um pensamento de gestão e de política pública para a cultura, como de fato antecipar-se no estabelecimento de prioridades e no apoio às iniciativas já existentes na sociedade.
Ariane Mouchkine, reconhecida diretora teatral francesa, disse que todos os ministérios, além do Ministério de Cultura, deveriam ter um Departamento Cultural. Eu digo mais: por que não fazer o mesmo nas empresas, nas associações, nos sindicatos, nas escolas, nas universidades, nas fundações, nos bancos, nas assembléias legislativas, nas câmaras municipais e no congresso nacional? Sei que muitos vão dizer: “ah, nós já temos o nosso departamento”, mas quando digo Departamentos Culturais quero dizer – Eleonora* me permita o plágio – com “verba e BOM verbo”. Aí o bicho pega…
(*Maria Eleonora Santa Rosa, ex-secretária de Estado da Cultura de Minas Gerais)
Chico Pelúcio é ator, diretor de teatro, integrante do Grupo Galpão e diretor geral-fundador do Galpão Cine Horto.
Tags: acesso, arte, cultura, democratização, produção cultural, teatro





Chico, parabéns pelo lúcido artigo. É pensando assim que projetos culturais dignos conseguem espaço e fazem a diferença, como os do Galpão. Obrigada.
Chico, tristeza, dificuldade e desesperança, é um “gran” banquete, todos os dias! É a perseverança que constrói um Cine Horto a cada dia. Vamos lá, de novo! Que venha 2010 com menos pepinos e mais alegrias!
?? Bons patrocinadores, parceiros do teatro e da arte, mesmo que raros, existem de verdade??
?? Será que, pra eles, é interessante que a comunidade tenha acesso a cultura e se torne consumidora consciente? Será mesmo??
Nosso embargo é tão subliminar que é cruel. É necessário que todos passem suas ideologias à limpo, a começar por descolar a função exercida da pessoa que exerce. Suas palavras estão por aqui, sementes ao vento! Avante mais uma vez.
Oi Chico. Gosto muito do seu artigo. Faz todo sentido. Tenho que para o nosso artístico, nosso educador. E para nosso educador, o artístico. E para os dois, espaços onde a máscara social exerceu seu domínio absoluto. E para todos, o coletivo criativo representado pelos grupos. Daí concordo que um Departamento de Cultura no Senado, no Congresso, iria muito bem. Nas Secretarias de Cultura seria um primor. Nas grandes corporações idem. Até nessas (ou principalmente essas) que nos patrocinam, porque não ? Facilitaria muito a intromissão justificada “pelo mercado” que voce também bem comentou. Agora, o que montar e como montar residirem no mesmo patamar, não sei não. Me intrigou. Pergunto se esses aspectos não se igualariam apenas internamente, como valor empírico para o grupo mas com um resultado final – externo – devendo em conceito. Pensei em muito do que já fiz e mesmo em Till – assisti muito feliz de revê-los no Sesc Pompéia. Mas saí com essa “orelha atrás da pulga”. O valor da experiência em assistí-los na realização ficou no patamar do deleite mas o conteúdo estacionou nas preliminares. A discussão pós espetáculo não se concretizou. O debate, a crítica, esvaziou-se. O embargo do racional não aconteceu. É isso que gostaria de acrescentar. Um grande abraço, com toda minha admiração.
Fala Diretor! Garoto esperto! Parabéns!
Olá, Chico. Seu artigo, que é muito bom, junto com a nossa conversa sobre o festival me fizeram pensar sobre a demanda cultural em Baependi. As coisas andam difíceis de ser mudadas pela maneira pontual, como temos realizado o Cante e Conte. Este ano de 2010 será o início de uma nova fase em que teremos de trilhar novos caminhos para conquistar novamente o público, que se tornou desinteressado nos últimos anos. Um dos caminhos está ligado, como você disse, às crianças nas escolas e também aos da terceira idade, como eu acho. As primeiras sempre estão abertas a tudo o que é novo, aliado ao conhecimento, em diversas manifestações – a arte é uma delas. Aos últimos, notamos que hoje há uma grande vontade de se envolverem com atividades antes ditas até como inadequadas para sua idade. Querem continuar crescendo, fazendo faculdade ou cursos de capacitação, ao invés de “tricotar” no sofá da sala ou assistir a telenovelas. Infelizmente considero que a atual geração de jovens, universitários ou não, está totalmente envolvida pelo marketing das grandes corporações e não se dá conta disto. Não possuem senso crítico, estético, político ou o que quer que seja. Ou está com a cabeça no passado, catequizada pelos mais velhos. Tentam viver culturalmente o que seus pais viveram. Olham para o presente e não vislumbram outras possibilidades que as da internet e dos seus games. Querem tudo pronto (copiar/colar), criar nem pensar. Claro que há excessões, mas são poucas. Ao mesmo tempo em que faço essa crítica ao jovem o meu trabalho está diretamente ligado a eles, que são meus alunos de música e futuros membros da orquestrinha de cordas do nosso projeto. Espero que contrariem o meu pensamento. Um grande abraço. Desculpe o palavrório.