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Entrevistas_10.09

Leandro Valiati – Economia da Cultura, um d...

Por Blog Acesso

 

valiatiA Economia da Cultura é um tema que demorou a pegar no País. Um dos motivos que podem explicar esse atraso, segundo Leandro Valiati, é o próprio conservadorismo dos economistas brasileiros. Apesar de ainda caminhar a passos lentos, este ramo da economia tem tudo para ser um dos que mais evoluirão nos próximos anos em território nacional.

Valiati, que é graduado em Economia, mestre em Planejamento Urbano e doutorando em Economia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ajudou a criar e a implementar o curso de pós-graduação em Economia da Cultura na mesma universidade. Hoje, além de lecionar na área, ele tem se ocupado em desenvolver indicadores de avaliação sócio-econômica de projetos sociais e culturais.

Durante a entrevista que concedeu ao blog Acesso, Valiati explica a importância da Economia da Cultura para o desenvolvimento de ações mais sustentáveis no cenário cultural brasileiro. De acordo com o economista, este é o momento para o Ministério da Cultura “articular iniciativas e recursos para um grande mapeamento de impacto e da cadeia produtiva da cultura nacional”. Confira estas e outras informações esclarecedoras sobre o assunto na entrevista a seguir.

Blog Acesso – Por que você acha que a Economia da Cultura é uma área que demorou a ser valorizada e reconhecida no Brasil?

Leandro Valiati – Foram dois motivos fundamentais: por um lado, os economistas e a ciência econômica são conservadores, o que implica em dificuldades para reconhecer um novo campo de estudo; por outro lado, a cultura é elemento de difícil apreensão, o que determina uma grande dificuldade em se posicionar disciplinarmente para estudá-la. Na prática, antes de formalizar a Economia da Cultura, é necessário perguntar: o que é Economia da Cultura? E, antes disso, o que é Economia?

BA – Mas "o que é Economia?" os economistas já devem se perguntar faz tempo, não?

LV – A vida inteira e toda a eternidade. E incorporar um novo elemento a ser objeto da aplicação do instrumental teórico da economia faz repensar toda a ciência econômica. Isso é bem legal, é autoconhecimento. Traduzindo: a economia, nos manuais, é a ciência que estuda a melhor alocação de recursos escassos em um ambiente de necessidades ilimitadas, mas, para mim esse conceito é reducionista. A Economia estuda o bem-estar e isso é muito amplo. Logo, definindo a Economia como a ciência que estuda o bem-estar (individual) e os caminhos para atingi-lo, construímos espaço para entender a Economia da Cultura não só como o estudo e organização da produção de bens culturais e seus efeitos multiplicadores (emprego e renda) como também o estudo da formação de valor individual e social (matéria prima do bem-estar) e nisso entra formação de hábitos de consumo, valores identitários, valor cultural, bens públicos, etc. É aí que, na minha opinião, começa a verdadeira Economia da Cultura.

BA – Então a questão da formação do valor individual e social, do bem-estar, apesar de você ter relacionado aqui à "verdadeira Economia da Cultura", na verdade vale para qualquer área da economia?

LV – Ótima pergunta. A Economia é uma ciência bastante dividida. Na abordagem ortodoxa, estuda-se a economia positiva, que leva em conta "as coisas como elas são", ou seja, com o arranjo de distribuição estabelecido, qual a melhor maneira de produzir. Nesse sentido, o espaço para pensar em coisas para além dos efeitos multiplicadores é muito pequeno. De outro modo, na leitura heterodoxa, que vê as coisas "como elas poderiam ser", há espaço para incorporar outros elementos do tipo: como melhor distribuir o produto? Quais os valores que existem para além da demanda de mercado? Como alcançar desenvolvimento, o qual, em alguns casos, pode estar inclusive descolado do crescimento? Nesse sentido, gosto muito do que Amartya Sen, Prêmio Nobel de economia, defende sobre capacitações sociais: para ele, desenvolvimento econômico significa bens disponíveis, pessoas (agentes) capacitados a discernir e escolher entre os bens disponíveis e renda para isso. Ou seja, que venha a Ivete Sangalo e o teatrão para elite, mas que também tenhamos Gerswhin em aulas escolas primárias e cinemas em bairros de periferia.

BA – A Economia da Cultura então vem para que a cultura seja mais democrática?

LV – Talvez.

BA – Depende da forma como ela é usada e aplicada?

LV – São duas etapas: a primeira é a da eficiência. Os recursos públicos são muito escassos, portanto é urgente repensar os sistemas de incentivo à cultura em termos do resultado ineficiente que eles têm apresentado. Além disso, temos que criar instrumentos de gestão tais como indicadores para que possamos compreender a realidade sobre a qual operamos no setor cultural (e social também). Passada essa etapa, chegamos à da distribuição, na qual, utilizando os instrumentos criados na primeira etapa, é possível distribuir socialmente o produto "cultura" de forma, ampla e democrática. Enfim, a economia tem instrumentos para isso.

BA – Até o Ministério da Cultura demorou a usar a economia para planejar e criar ações e programas. Não é estranho detectar que o órgão máximo da Cultura no País trabalhava até pouco tempo sem saber dados básicos como o número de brasileiros que vai ao cinema regularmente?

LV – Além de estranho é preocupante que ainda hoje não tenhamos dados consolidados e nenhuma iniciativa integrada nesse sentido. Existe o Suplemento de Cultura feito em parceria com o IBGE, mas é algo isolado que olha fundamentalmente para a infra-estrutura. Acho que seria fundamental o Minc articular iniciativas e recursos para um grande mapeamento de impacto e da cadeia produtiva da cultura nacional. Isso atrairia investidores externos e internos, públicos e privados, e daria instrumentos efetivos para uma atuação cirúrgica dos instrumentos de gestão pública. Esse é o caminho para a sustentabilidade do setor, o que seria revertido em bens culturais disponíveis, o que é bem-estar.

BA – E como isso deve ser feito?

LV – Penso que para um estudo desse tipo ser viabilizado é necessário um amplo debate com as universidades, setor privado e público atuante na cultura, realizadores, para que o método seja apropriado e os resultados factíveis. Não vejo isso ocorrendo, apesar de toda a boa intenção do ministério. Nesse sentido, participei de dois projetos que acho relevantes para ilustrar.

BA – Quais são?

LV – Um deles, com o governo de Pernambuco, foi para criar um indicador de efetividade da política cultural do Estado. Pesquisamos todos os ciclos anuais de eventos como o carnaval e a Paixão de Cristo, por exemplo, a fim de mapear os dados de impacto sócio-econômico dos mesmos, além de criar um indicador qualitativo e quantitativo para avaliar os resultados de cada ação específica, compreendendo assim os dados de emprego e renda, mas com o pano de fundo de compreender os aspectos qualitativos associados à sustentabilidade.

O outro projeto, que veio antes do de Pernambuco, foi para criar um índice para seleção e acompanhamento de projetos da secretaria de justiça e segurança social do Rio Grande do Sul. O fato inovador nesses dois projetos é que eles geraram um instrumento de gestão que permite (se alimentado em termos de dados), por exemplo, que daqui a vinte anos se tenha uma análise da evolução das variáveis levadas em conta para perceber se o programa superou dificuldades identificadas e se os investimentos foram feitos adequadamente onde deveriam.

A partir disso, concluímos que duas coisas são importantes. A primeira é conhecer a realidade e os resultados principalmente em um mundo onde o filantrocapitalismo está aí como valor. Não é admissível que não saibamos os resultados de um investimento (público ou privado) social ou cultural. A segunda volta à questão da necessidade de integração dos esforços: essas duas iniciativas, por exemplo, que são modernas e inovadoras em âmbito mundial, muito provavelmente não são conhecidas pelo ministério ou pelo terceiro setor. É possível que outras iniciativas estejam isoladas por aí. Precisamos formar massa crítica e isso se faz integrando ações.

BA – Será que só mesmo com o tempo a nascente Economia da Cultura do Brasil vai começar a mostrar, por meio de resultados, como ela é fundamental para que todos os brasileiros tenham acesso à cultura?

LV – Olha, acho que já é tempo de transformarmos o pensamento existente sobre o tema em tecnologias, tais como as dos instrumentos de gestão por indicadores sociais e culturais de que tratamos. Já é hora do próximo passo, dado o avanço que já existe no país sobre o tema.

 

 
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16 Respostas para “Leandro Valiati – Economia da Cultura, um desafio para o Brasil”

  1. Malu disse:

    Leandro

    Parabéns, você é um exemplo de luta, persistência e determinação.

    Receba um abraço de tia admiradora,

  2. Ines D Bregolin disse:

    No atual modelo da Economia pública brasileira, ocorre muitos desvios dos recursos aplicados na cultura.Conforme notícias da imprensa. Não temos dados estatisticos para podermos avaliar melhor o resultado dos recursos aplicados.

  3. duda disse:

    Leandro,

    Gostaria de saber sua opinião sobre a economia criativa (Richard Florida) e a economia da atenção (G Franck). Em relação ao aspecto cultural, ainda temos menos de 1% do PIB dedicado ao setor e uma ausência de políticas culturais e sim de politicas tributárias.

    Um abraço
    Duda

  4. Muito boa colocação do Valiati, sobre projetos culturais em outras áreas que provavelmente o MinC não tem conhecimento. Creio que tudo que foi abordado será utilizado como material na Conferência Nacional de Cultura. Parabéns pelo trabalho.

  5. Luciana disse:

    Parabéns Leandro.
    Tudo que vc abordou nessa entrevista é uma realidade no nosso Brasil, não tem como trabalhar com cultura sem antes saber de onde devemos partir. Quero ver essas bandeiras sendo levantadas por muitas pessoas na Conferência Nacional de Cultura.

    Um abraço.

    Ponto de Cultura de Colinas do Tocantins

  6. Leandro disse:

    Duda
    O Richard Florida é um ótimo autor, particularmente quando trata de cidades criativas e formação de capital humano para ações de economia da cultura. Vale a pena. Quanto às estatísticas, reforço a necessiadade de produzirmos as mesmas de forma mais metódica e confiável para que o setor possa ganhar referências para políticas.

  7. Leandro disse:

    Obrigado a todos pelas observações, inclusive podemos conversar pelo meu email pessoal que a moderação do blog possui. Atenciosamente, Leandro Valiati.

  8. Bonioulsolict disse:

    Very nice Blog, I will tell my friends about it.

    Thanks

  9. jorge anthonio e silva disse:

    Eu quero saber se há algum livro publicado, sobre o tema da Cultura e Economia.

    jorge anthonio

  10. Blog Acesso disse:

    Oi, Jorge. Existe, sim. Na seção Acesse, deste blog, você vai encontrar uma bibliografia sobre o tema.
    Abraço,
    Equipe blog Acesso

  11. oppospiny disse:

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  14. flavio valiati disse:

    Uma reflexão apropriada rebocada por alguém que sabe o que fala.

  15. luciana perini farias disse:

    oi , saiba que suas respostas serviram para um trabalho que tive que fazer na faculdade !!!!

  16. Bom post sobre Leandro Valiati – Economia da Cultura, um desafio para o Brasil « Acesso, o blog da democratizacao cultural. Estou muito impressionado com o tempo eo esforço que você pôs em escrever esta história . Vou dar- lhe um link no meu blog de ​​mídia social. Tudo de bom!

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