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Entrevistas_07.08

Ivaldo Bertazzo – Dança Comunidade

Por Blog Acesso

 

Um dos mais conhecidos coreógrafos brasileiros, Ivaldo Bertazzo optou por trabalhar com pessoas comuns, de diferentes classes e profissões, por ele denominados de “cidadãos dançantes”, na década de 1970. O trabalho idealizado em plena juventude culminou, anos depois, com a criação da Companhia TeatroDança Ivaldo Bertazzo, na qual capacita jovens para atuarem na área e tornarem-se multiplicadores do conhecimento adquirido, por meio da arte e da educação. Prestes a iniciar um novo espetáculo, o musical É ou Noé, Ivaldo avalia o trabalho à frente da Companhia, comenta projetos realizados com jovens e fala sobre a experiência de levar a arte a comunidades carentes.

Boletim da Democratização Cultural – A Companhia TeatroDança Ivaldo Bertazzo trabalha nas áreas social e cultural, unindo arte e educação. Como surgiu essa frente e que resultados tem alcançado?

Ivaldo Bertazzo – Quando iniciei o projeto Dança Comunidade, tinha como objetivo acelerar o aprendizado ou os hiatos que a escola pública não consegue preencher por meio da arte e da educação. Ao invés de focar apenas na poesia que a arte possui, no abstrato, parti para o concreto. Acredito que a arte trabalha o indivíduo, com linguagens artísticas que exploram diferentes potenciais. Por exemplo, a pintura deverá levá-lo a conseguir compreender volume, dimensão e profundidade no espaço, porque enriquece muito a capacidade nesses aspectos. Já o teatro falado, amplia o vocabulário e faz com que ele use a linguagem como troca no meio ambiente, e não só como verborragia foneticamente mal articulada.

B.D.C. – Como é a receptividade desses jovens ao trabalho corporal, levando em conta que a sua proposta exige um alto nível de concentração?

I.B. – Hoje, discute-se muito a agressividade de um adolescente e a sua impossibilidade de ficar em uma atividade de escuta, em uma sala de aula sentado. Mas se ele não parar e aprender a escutar música de qualidade, não vai diminuir sua agressividade. Ouvir cria uma interiorização, uma reflexão e abre canais para aprender, para trabalhar a respiração. E o gesto, finalmente, é no que ele consolida uma identidade; consolida o corpo no espaço. Se não houver relação do corpo com o espaço e os objetos a sua volta, por meio de gestos organizados, você entra numa atitude de caos. Enfim, dentre todas essas possibilidades, nós desenvolvemos uma imensa metodologia para, por meio de um trabalho de arte e educação, levar o jovem à profissionalização – e procuramos um atalho para acelerar seu crescimento.

B.D.C. – Por que cortar caminho?

I.B. – Uma pessoa com poucos recursos, que demora a se capacitar, acaba ‘indo para o brejo’; não arranja emprego , muito menos, o que comer. A idéia nunca foi ser paternalista, mas advertir para que esse jovem ache sua vocação e capacite-se a obter um bom emprego. Nosso objetivo é ajuda-lo a se transformar em um cidadão, não em um sindicalista desarvorado, que grita recusando o sistema; mas em alguém que tem consciência política e sabe articular palavras para mostrar seus direitos. Isso sim pode transformar a sociedade

B.D.C. – Como as questões sociais se ligam às culturais na Companhia?

I.B. - A arte e a cultura são os meios para melhorar o social, que é o fim, o objetivo. O viés cultural é um exercício. As pessoas põem a arte em uma fronteira, em um patamar inatingível.

B.D.C. – Há críticos da inserção do social dentro de projetos culturais que dizem que isso prejudica ou até banaliza a arte. O que o senhor pensa a respeito?

I.B. – Ora, veja bem. A Orquestra Sinfônica de Heliópolis não é um projeto social? Claro que é. E não é de uma grandeza cultural absoluta? Também. Agora, isso de que o social banaliza a arte é papo de elite, é o medo da própria elite artística, que vive fechada em uma redoma e teme que o mercado artístico se abra para mais gente. Quando as primeiras orquestras começaram a surgir na periferia, os eruditos diziam que aquilo não daria em nada, que era um perigo para a arte erudita. E elas banalizaram a arte? Claro que não, em nada. Isso é papo furado, coisa de ditador da cultura, de quem não quer que ela se abra. Mas quanto mais o mercado se abre, mais vão surgindo novas expressões e linguagens.

B.D.C. – Nem todo projeto tem vocação para atuar na área social. As exigências que o MinC faz para aprovar projetos via Lei Rouanet não acabam por tornar inviável a promoção da arte?

I.B. – Essas exigências são tendências que surgem em diferentes governos. A gente não pode temer que isso vire uma patrulha ideológica. Patrocinar processos artísticos é uma coisa muito cara, por isso é natural que se espere uma contrapartida. Por exemplo, a Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] é muito cara, mas, à medida que oferece mais concertos ao público, passa a atuar como um projeto social. Existem formas distintas de fazer esse social. Não é só pegar o menino carente da periferia e fazer espetáculos para ele, ou ministrar uma oficina. Temos que pensar o que um espetáculo, que tem um bom patrocínio, pode oferecer ao público. Na maioria das vezes, não oferece nada. São raros. Então, acho que a contrapartida tem que ser obrigatória, sim.

B.D.C. – Como teve início a idéia de levar a dança para comunidades de baixa renda?

I.B. - Eu tenho uma escola há 33 anos que trabalha o corpo de uma classe privilegiada financeiramente. O corpo da periferia eu não conhecia, não sabia como levá-lo a níveis de erudição gestual, não sabia que dificuldades iria encontrar. Essa curiosidade me motivou. Tive de trabalhar com o concreto, com a forma e criei o Cidadão Dançante.

B.D.C. – O que significa o Cidadão Dançante?

I.B. - O Cidadão Dançante mostra que o corpo é ferramenta de comunicação e que não pode ser ignorado. Precisamos do corpo para o trabalho, de qualquer tipo. Mesmo sentado em uma cadeira de escritório, você precisa do corpo, de uma postura adequada. Artisticamente, o conceito de Cidadão Dançante traz níveis expressivos diferentes do que estamos habituados a ver. O público paga para assistir uma pessoa que é igual a ele, que investiu meses em uma qualidade expressiva.

B.D.C. – O senhor criou uma metodologia diferenciada que prega a consciência dos movimentos. O quanto a consciência corporal pode trazer autonomia, elevação da auto-estima e fortalecimento da identidade, principalmente no caso de jovens de baixa renda?

I.B. – Os resultados de um trabalho como esse são muito demorados. Porém, é perceptível que o corpo passa a ser tratado com um pouco mais de dignidade e deixa de ser apenas um objeto de consumo. Os princípios que iniciei foram os da organização motora e o primeiro passo foi mudar o comportamento de abandono e soltura pejorativa do corpo.

B.D.C. - Como se deu a interação desses jovens com os outros bailarinos?

I.B. – Foi muito produtivo. Ter corpos de classes sociais diferente em confronto impulsiona a compreensão de como cada classe resolve o movimento. Uma menina que faz balé desde cedo, que tem imensa facilidade de articular o corpo, se confronta com outra, da periferia, que parece feita de metal, porque no começo ela é dura, mas é mais forte. O encontro de distintas classes e corpos traz novas linguagens para o futuro das artes cênicas. Ainda estamos plantando essas idéias, mas é certo que não se pode ter pessoas somente de uma classe social no trabalho artístico. A reação dos participantes, a princípio, é de curiosidade, de encantamento, o que permite experiências do tipo ‘eu resolvi o movimento desse jeito, mas olha que interessante como o outro está fazendo, que resulta na mesma coisa, mas por outros caminhos’.

B.D.C. – O senhor trabalhou com jovens, no Complexo da Maré, RJ, por três anos. Como foi a recepção deles e qual o resultado desse projeto?

I.B. – Como com qualquer pessoa, lá eu tive de começar com o mais fácil. Deitar no chão, organizar a estrutura do corpo, arrumar a postura, fazer coisas interiorizadas. No início, eles tinham muito desconforto, ficavam irritados, porque eles queriam movimentar-se. Mas, no começo, é necessário passar por situações e conflitos com a sua capacidade de organização e interiorização até alcançar a alquimia.

 

 
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43 Respostas para “Ivaldo Bertazzo – Dança Comunidade”

  1. brenda disse:

    quais os estilos de dança representado pelos bailarinos???

  2. pamela disse:

    voceis sao d + cotinuem assim

  3. Evelyn disse:

    adorei continue como vcs estão

  4. Fernanda disse:

    adorei isso, continue sempre assim . ;)

  5. Bruno disse:

    meu sonho sempre foi dançar e nunca paraar !
    mais pra isso preciso de uma chance em uma compania de dança
    pra fazer e dar o melhor de mim
    assim foi Ivaldo deu o melhor de si pra ter oque tem hoje.
    estou estudando na escola sobre ele e sua companhia teatro dança Ivaldo Bertazzo,
    e essas informações foram boas pra mim ;)
    OBRIGADO

  6. simone disse:

    parabens pelo seu trabalho voce faz a melhor coisa do mundo que e dança um dia com sertesa dançarei com voce faz isso porque gosta e acaba ajudando muita jente e de pessoas como voce que o mundo precisa

  7. Maria da Penha Fonseca disse:

    Quero montar um projeto de dança no meu bairro com crianças carentes, faço parte de uma ong de conscientização ambiental. Como posso começar , e como conseguir patrocínio para isso?

  8. Blog Acesso disse:

    Cara Maria,

    obrigada por ler o Acesso. Nossa sugestão é que leia a matéria “Guias auxiliam em elaboração de projetos”.

    Grata,
    equipe blog Acesso

  9. MARINS, Juliana disse:

    Olá, primeiramente parabéns pelos projetos, são admiráveis! Sou estudande de Serviço Social da UFSC, bolsista CNPQ e sigo uma linha de pesquisa sobre: As artes e o desenvolvimento humano: a contribuição da dança no desenvolvimento cultural, social e político do indivíduo. Gostaria de saber de você tem algum material para me indicar? Aguardo resposta.. Abraço.

  10. Blog Acesso disse:

    Cara Juliana,

    não possuimos artigos para te indicar, mas sugiro que entre em contato com a Nicole Aun, ela é a responsável pelos projetos de dança do corpo rastrado. Acredito que ela possa te ajudar. Envio para seu email os contatos dela.

    Grata,
    equipe blog Acesso

  11. sabrina disse:

    vc e d+ ivaldo entrei no seu blog para pesquisar e acabei me entereçando e agora eu entro todo dia

  12. sabrina disse:

    e parabens por esses trabalhos maravilhosos que vc faz

  13. douglas disse:

    parabens pelo blog amei a entrevista
    se me permite to te seguindo
    valeu!

  14. Bruns disse:

    eaaaaai, gostei

  15. naiana disse:

    muito bom Ivaldo,gosto muito do seu teabalho
    sempre seja essa pessoa simpres q vc é q sempre
    vc ira alcansar coisas boas na sua vida

  16. margarida rosas disse:

    Sou sua fã de carteirinha. Quem sabe,um dia participar dos seus cursos.Pena,não estar ao meu alcance! Sou professora de educação física e trabalho há 10 anos com pessoas que funcionam de forma diferente“ patologias diversas´´.Professora de dança em cadeira de rodas,cegueira total,espectro de autismo, deficiência intelectual, doença mental e outros.
    amo sua história de vida,o seu trabalho e como pessoa….
    fique na PAZ!

  17. keziaguedes do santos disse:

    eu gostei muito dessas dancas muito interesante

  18. Mariana Cristine disse:

    Oi
    gostaria muito de uma oportunidade em uma companhia de dança
    faço aula de dança a 4 anos mas ainda não consegui entrar numa companhia
    obrigado

  19. Em São Paulo a passeio comprei o CD Milágrimas. Gostaria de adquirir, se houver, o DVD correpondente ou outro, como proceder.

  20. Blog Acesso disse:

    Olá, Luiz. Sugerimos que você acesse o blog do Ivaldo Bertazzo para mais informações. O endereço é http://ivaldobertazzo.com/.
    Boa sorte! Qualquer outra dúvida, estamos à disposição.
    Equipe Acesso

  21. rosana de oliveira victor disse:

    gosto muito de vcs…

  22. juliana rocha disse:

    adoro seu trabalho

  23. Parabéns … Ivaldo pela sua carreira proficional …Q Deus continue a iluminando o seu caminho , e ele ( Deus ) continue te abençoando … Bjs fique com Deus !!!

  24. Sou sua fã de carteirinha. Quem sabe,um dia participar dos seus cursos.Pena,não estar ao meu alcance! Sou professora de educação física e trabalho há 10 anos com pessoas que funcionam de forma diferente“ patologias diversas´´.Professora de dança em cadeira de rodas,cegueira total,espectro de autismo, deficiência intelectual, doença mental e outros.
    amo sua história de vida,o seu trabalho e como pessoa….
    fique na PAZ!

  25. Parabéns … pelo blog amei a entrevista
    se me permite to te seguindo
    valeu!

  26. Meu sonho sempre foi dançar e nunca paraar !
    mais pra isso preciso de uma chance em uma compania de dança
    pra fazer e dar o melhor de mim
    assim foi Ivaldo deu o melhor de si pra ter oque tem hoje.
    estou estudando na escola sobre ele e sua companhia teatro dança Ivaldo Bertazzo,
    e essas informações foram boas pra mim
    OBRIGADO !

  27. Meu sonho sempre foi dançar e nunca paraar !
    mais pra isso preciso de uma chance em uma compania de dança
    pra fazer e dar o melhor de mim
    assim foi Ivaldo deu o melhor de si pra ter oque tem hoje.
    estou estudando na escola sobre ele e sua companhia teatro dança Ivaldo Bertazzo,
    e essas informações foram boas pra mim
    OBRIGADO !Adorei isso, continue sempre assim .

  28. Rafael Parente disse:

    Durante todo este bimestre, eu e meus colegas estamos estudando dança na matéria de Artes, e estamos adorando explorar universo da dança criado por Ivaldo Bertazzo em seu espetáculo Mar de Gente. Realmente ficou lindo! Parabéns.

  29. vanessa helena faustino disse:

    achei muito interessante,pois passa varias informaçoes sobre a companhia teatro dança de ivaldo bertazzo,como começoue como é…
    amei amei amei…

  30. larissa cristina intimo disse:

    gostei muito da sua companhia danca e teatro,principalmente a peca mar de gente e por voce trabalhar com pessoas de varias classes.adorei

  31. luana da silva disse:

    achei muito interessante,legal.
    continui assim parabens…..
    AMEI AMEI AMEI …

  32. Começo a apreciar o material de pesquisa e percebo o quanto sou limitada. Abraços!

  33. Maeia Jose Pereira Pursino disse:

    Sou a mae de duas preciosidades da sua companhia: AMANDA e ANGELICA . Estou feliz pelo efeito positivo que esse trabalho causou na vida delas , e sou grata a voce ivaldo por toda essa sua dedicaçao a elas e ao grupo ,quero que saiba que eu admiro e respeito o seu trabalho .as meninas sentem saudades e mandam beijos Aenciosamente , MARIA JOSE .

  34. laura disse:

    qual o seu trabalho com os jovens?

  35. Rosangela disse:

    Tenho 54 anos e descobri agora aos 50 anos o quanto amo dança, meu pai foi dançarino de teatro.Todas as festas que tinha em nossa casa ja vinha ele me tirar pra dançar, eu não gostava pois o achava muito exibido. Hoje descobri que a arte é exibida, gosto de me exibir e me aprimorar, gosto quanto estou nos bailes e as pessoas param para me ver dançar, fico em casa ensaiando meus passos é tudo tão maravilhoso.Se tivesse permitido que meu pai me ensinasse seria eu hoge uma professora de dança.Tenho charme, elegancia,molejo mas não tenho a tecnica, mesmo assim amo dançar

  36. bruno disse:

    eu nao sou seu fan mais eu to fazendo um trabanho sobre vc e é muito dificil de mais, minha professora ti ama muito

  37. Rebeca disse:

    é mesmo,”banaliza a arte é papo de elite”

  38. carolina disse:

    vc é d+ IVALDO,seu blog então nem se fala…parabens por ser essa pessoa bacana!!!

  39. Fabiana disse:

    Parabéns! Vc é uma pessoas iluminada… não somente pelo o que faz em seus projetos, como também o que faz com as pessoas que lêem sobre os teus projetos… É emocionante dizer que estou mais realizada ainda por ter aprendido mais e, sensibilizada no que se diz entretenimento social e cultural.

  40. camily disse:

    na minha escola estamos aprendendo sobre a dança Ivaldo bertazzo e munto legal vou tirar um dez

  41. [...] Leia também a entrevista concedida por Bertazzo ao Acesso sobre o projeto que capacita jovens para atuarem na área da dança e do teatro e tornarem-se multiplicadores do conhecimento adquirido. [...]

  42. Rosa Maria disse:

    tenho roupas de ballet pata doação e gostaria de doar para comunidades carentes.

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