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Artigos_07.09

A cultura e a formação do ser humano: sobre...

Por Marcia Tiburi

 

marcia_tiburi

O conceito de cultura está intimamente ligado ao conceito de formação. Precisamos prestar atenção nesta relação para entendermos o estado da questão nos dias de hoje quando certa crise da cultura relaciona-se à educação no contexto da crise geral da sociedade. O que a sociedade tem a ver com a cultura?  O que a cultura pode fazer pela formação dos indivíduos para além da educação? Entre a inclusão e a exclusão de indivíduos e grupos ao poder, pois é de poder que se trata quando se fala de cultura, a sociedade de um modo geral enfrenta-se com o desejo da democracia que nada mais é do que a partilha das ideias e das práticas no contexto de sua diversidade. Vivemos a experiência de uma sociedade afundada em diversas perspectivas, desejos, posicionamentos e, sobretudo, jogos de força. Em meio a isso tudo, a democracia é um desejo e um ideal pelo qual devemos lutar, pois não está pronta como demonstra a inacessibilidade da cultura.


O que é cultura

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que “cultura” é um conceito usado genericamente para falar da totalidade dos valores e das práticas humanas. Neste sentido, cultura é tudo o que é produzido pelo ser humano enquanto não é próprio da natureza. Em um segundo sentido, costumamos chamar de cultura um tipo de recorte para definir práticas relacionadas às artes e às chamadas ciências humanas voltadas à pesquisa de cunho antropológico e social. Distinguem-se das ciências duras voltadas para a pesquisa sobre a natureza.


Esta oposição é decisiva na compreensão da cultura na atualidade. As ciências exatas ou naturais, ciências vistas como “duras” em função de seu respaldo no método empírico, são também aquelas que se relacionam historicamente com a noção de progresso. Progresso, por sua vez, é algo que faz parte da ideologia do mercado. O produto do progresso nunca foi a arte, mas a tecnologia que não se faz ver em espetáculos teatrais ou livros de arte, mas em medicamentos, eletrodomésticos, carros. Tais produtos são hipervalorizados e lucrativos. Por oposição a eles é que passamos a chamar de produtos culturais determinados artefatos que acabam por carregar a marca de algo inútil porque contrário ao progresso, ao mercado e ao lucro.


Os produtos da cultura em seu sentido estrito são desvalorizados pelo mercado. Mas que sejam desvalorizados pela sociedade como um todo é um problema sério. Muitos artistas e produtores culturais tentam mudar isso e muitos conseguem transformando arte em objeto industrializado para atingir o maior número possível de pessoas, ou produzindo objetos – músicas, espetáculos, filmes – para o puro entretenimento. Aí é que aparece a indústria da cultura que não tem necessariamente a ver com obras de arte. Ou seja, pode-se produzir um disco inteiro apenas para fazer sucesso no mercado, desconsiderando qualquer daqueles valores como sensibilidade e rigor estético que fazem parte da história da arte. Isso pode escandalizar alguns, mas para aqueles que pensam em termos de mercado não há nada demais.


De que acesso estamos falando?

A questão do acesso precisa ser pensada a partir daí. Todos nós temos acesso aos produtos industrializados da cultura e que são escoados pelo mercado, seja pela televisão aberta ou pelos shows em estádios lotados com músicos competentes em entreter massas inconscientes. No entanto, a maior parte da população nem fica sabendo o que existe em termos de produtos - ou obras de arte - para além daquilo que é oferecido no contexto do mercado. Não é errado pensar que o avanço da indústria impede o avanço da arte, pois a indústria aliada ao mercado, aliada à propaganda, sempre coopta adeptos, avança nos espaços, não deixando lugar para outras expressões. A indústria também comanda os interesses, produzindo-os pela propaganda.


Raramente se vê nos meios de comunicação a propaganda espontânea de uma exposição de arte, de cinema, de um espetáculo de dança que escape do que pode render lucro. Há, é claro, exceções que confirmam a regra. Mesmo o patrocínio por meio de leis de incentivo é orientado a produtos da indústria da cultura muito mais do que a produtos propriamente artísticos. A cultura está reduzida ao que o mercado determina quando escoa produtos industrializados. Fazer cultura seria, neste caso, resistir diante do mercado, e poder intervir no desejo das massas. Mas há desejo fora do mercado nos dias de hoje?


Podemos responsabilizar a educação e até mesmo a família como tantos fazem. Podemos dizer que o desinteresse das massas é promovido pelos meios de comunicação. Estamos diante do velho dilema de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. O problema da educação, da família, dos meios de comunicação, é o problema geral da sociedade – sociedade civil, governo, esfera privada e pública – que não se importa com a formação de seus cidadãos porque ela não dá lucro. Curiosamente, a educação que dá lucro, aquela das escolas privadas, vai muito bem no Brasil. O acesso aos bens em geral, inclusive os culturais, dos que tem poder econômico não é um problema real.


O problema da cultura é também “cultural”

O problema do acesso à cultura é ele mesmo um problema cultural. E não deixa de ser até mesmo um problema estético, ou seja, de gosto, de relação sensível com as obras de arte e os produtos culturais. Mas aqui ele se mostra também em seu caráter de problema ético. No Brasil poderia haver certa inconsciência sobre o que estamos fazendo de nós mesmos se não estivéssemos mergulhados em um profundo jogo de poder em que está sempre vencendo o mercado. O problema do mercado não é outro do que a unificação dos seres humanos, impedidos de outras experiências estéticas capazes de promover a formação para além da estupidificação, da imbecilização que o modo de ver o mundo de um só ponto de vista produz.


As palavras que usei são fortes e até mesmo feias, mas devem ser usadas como um balde de água fria que, incomodando, nos acorda.
 Contra o descaso da política institucional e da sociedade como um todo, cabe a labuta diária de artistas e produtores, professores, jornalistas e cidadãos que não pensam que a hegemonia do pensamento, da ação e da experiência estética seja um bom futuro para uma sociedade que deseja ser verdadeiramente democrática.


Marcia Tiburi é  graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicou as antologias As Mulheres e a Filosofia (Editora Unisinos, 2002),  O Corpo Torturado (Ed. Escritos, 2004), e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero (Edunisc). Em 2008 publicou Filosofia em Comum - para ler junto (Record).É professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie, colunista da Revista Cult e participante do programa Saia Justa, do canal GNT.


Crédito foto: Acervo CPFL

 




 

 
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16 Respostas para “A cultura e a formação do ser humano: sobre o acesso à cultura”

  1. Juliet disse:

    Hum..essa Marcia eh muito inteligente..ela naum me parecia ser muito no programa Saia Justa..acho que naum a deixam ela falar no programa ou ..
    sei la..achava ela bem fraquinha!!
    Gostei muito dessa sua coluna,foi bem elucidativa e um assunto a ser discutido
    com mais frequencia pela sociedade..principalmente pela midia.
    Valew Marcia!!

  2. Sônia disse:

    Concordo plenamente com a sra. Márcia Tiburi explicou, mas o que me pergunto, se existe esse mercado da indústria do entretenimento que visa acima de tudo o lucro, não seria o próprio reflexo da consciência da sociedade? Pois se se vende algo é porque há comprador interessado! Será a grande massa da população que simplesmente não quer pensar? Não possui sensibilidade suficiente para apreciar o que arte tem realmente a mostrar? Isso ocorre pela falta de educação adequada? Creio que é um conjunto de situações, mas o que tenho real certeza é que isso tem que ser mudado!

  3. Eu acredito que uma das formas de democratizar o acesso aos produtos culturais e torná-los esteticamente atraentes à população é descentralizar a produção, a educação artística e os equipametos de cultura. Ações como o Vale Cultura; em SP, o Proac voltado a destinar verbas aos pontos de cultura dos bairros podem melhorar muito o cenário atual. No entanto, os que hoje detém o poder, os cânones, terão de aceitar e respeitar a produção que vem dessas iniciativas, principalmete as da periferia, assim como estas precisam notar o valor das manifestações diferentes às suas. Quanto aos produtores de massa que objetivam lucros, eles atendem à demanda, no momento que cada célula que compõe nossa sociedade tiver outros valores e espectativas, é claro que os homens de negócios tratarão de supri-las, pois tem-se que atender o mercado. Se cada uma das cabeças pensantes e idealizadoras desse país fizer melhor a sua contribuição social, no máximo que puder, acredito que em certo tempo, não sei precisar quanto, veremos uma sociedade mais culta, consciente, atuante e desenvolvida.

  4. [...] “A cultura está reduzida ao que o mercado determina quando escoa produtos industrializados”   Em artigo sobre a influência da cultura na formação humana, Marcia Tiburi diz que indústria impede o avanço da arte. Saiba mais: http://www.blogacesso.com.br/?p=1276 [...]

  5. Muito bem colocadas e lúcidas as constatações da Marcia. Ações como o vale cultura funcionam à perfeição para o mercado. Nunca para os produtores de arte. Acho que seria melhor criar um vale arte, já que o vale cultura atende o mercado, o “show bussines”, capaz de atender a demanda popular por entretenimento. A própria Marcia é um produto do mercado quando participa do Saia Justa. Quem imaginaria que existe mais do que aparenta naquele programa pueril. Gostaria de ver um programa mais “arte” chamado MARCIA MATA E MOSTRA O PAU

  6. [...] PORQUÊ O BLOG..? A cultura e a formação do ser humano: [...]

  7. A Marcia falou sobre o grande problema que é uma sociedade que nao incentiva a cultura. Problema este que vem do âmago da educaçao. Sinto exatamente o termometro desta situação nas salas de aula. Sou bacharel em desenho e plastica e mesmo assim dou muitas aulas de arte , na faculdade , ensino medio e fundamental. É assombroso a ausência de qualquer dado basico de cultura, de arte, fruiçao, nada! Exatamente como a Marcia mencionou, a industria do vender, do lucro, massificaçao, satisfazer um gosto que é pobre por natureza e o pior: fazer continuar assim!!! Tenho pena das crianças que acham feio sua propria manifestaçao artistica espontanea, gestual, simplismente por nao estar parecido com a forma real !!! E pasmem! Obrigados a desenhar com regua pela profe anterior senão será descontado nota!!!! Um absurdo! Nao se faz ideia do que a arte e a cultura fazem de maravilhoso na vida de um ser humano!!! Os torna criativos, inventivos , buscadores, investigadores, questionadores !!!!!! Teriamos menos jovens drogados, menos revolta, menos agressividade… é uma pena..

  8. É possível mudar as ideias? Imagine o quanto é preciso lutar para conseguir um espaço na cabeça das passoas. O gosto popular tem história, e por trás dessa história, os mentores do mercado, a ideologia do mercado. A arte/consumo é descartável, e não tem um papel educador, provocador, questionador. Creio que agora o melhor meio de “atingir” o grande público parte daqui, da internet. Recebemos “toneladas” de emails de conteúdo duvidoso, mas também circula material que impressiona. Você nunca recebeu um slide de um pintor, um desenhista, um peça tetral, um escultor ou uma poesia e que havia lhe marcado? Creio que o caminho seja esse. Tenho investido e incistido, através da minha página na rede, que a prática do desenho e da pintura contribui para a formação e a educação dos mais jovens. Os grandes meios de comunicação tem se adaptado ao que aparece na internet. É hora dos artistas e defensores da cultura artística influenciar cada vez mais.

  9. elisama gomes disse:

    eu queria saber se algumas cultura do brasil sao a mesma dos estado unidos

  10. caio henrique disse:

    nossa vc é demais explicou muito bem o que é a cultura e tudo mais não sei nem o que te dizer só tenho que fala que vc é demais

  11. Escola Municipal Rural sonho meu disse:

    Os alunos do 1º ano dessa escola estão tão interessados com o contéudo que a pŕofessora Valquiria fez os alunos elaborarem um extenso trabalho com o máximo de 10 linhas..E vimos nesse conteudo que o futuro do Brasil tem muito a desejar.
    Temos o aluno Jefferson que é aplicado, o Diogo que é vagabundo, o Jonas desequilibrado…
    Aff…mas eles são os filosofos do nosso futuro, aquelas que vão mudar o destino do Brasil e do mundo brasileiro.
    Agradeçemos a tudo desde já..
    E não perca o VMB hoje ás 22 da noite na MTV

  12. Pietra disse:

    A próxima geração pode ter uma cultura melhor do que a nossa, Márcia?

  13. José Carlos disse:

    Márcia, estou preparando um livro para publicação e, entre outros, escrevi estes versos: “A cultura é inerente/ a toda pessoa humana./ O que na vida se aprende,/ é da cultura que emana.” Uma amiga que faz minha revisão, disse que a rima é rica mas há contradição. O que que você acha. Pode me dar por favor, sua opinião? (A rima do pedido de ajuda é mero acaso). Desde já, agradeço. José Carlos.

  14. kleiton assunção disse:

    Nietszcher e Adorno dois grandes filosofos, que buscaram o caminho da nossa individualidade. Eu vi neles o reflexo de sua obra. O mundo precisa de pessoas como você, inteligente, critica e sem medo….

  15. Jaine disse:

    tudo errado, nao tem nada a ver com que eu queria saber

  16. clara moura disse:

    nada a ver…odiei a resposta!

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