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Entrevistas_11.07

Lilian Pacheco – Griô: um novo ângulo par...

Por Blog Acesso

 

A ONG Grãos de Luz e Griô surgiu como tantas outras iniciativas Brasil afora para suprir as demandas da comunidade. No caso, a comunidade era a de um bairro periférico de Lençóis, na Bahia, e a demanda a preparação de sopa para as crianças da região. A chegada de Líllian Pacheco e Márcio Caíres ao local, em 1997, possibilitou a estruturação da iniciativa, que ganhou um conceito pedagógico baseado na tradição oral. Hoje, os projetos da ONG são reconhecidos e valorizados pela sociedade, a ponto de constituírem a base pedagógica da política de educação federal e de conquistarem editais como o promovido pela Votorantim, levando o valor máximo destinado a projetos focados na democratização cultural. Nessa entrevista, Líllian e Márcio contam um pouco sobre a trajetória da iniciativa e explicam o conceito “griô”.

Boletim da Democratização Cultural – Qual a origem da palavra griô?

Lilian Pacheco – A colonização de diversos países do noroeste da África foi francesa, assim griot é uma palavra francesa que denomina as figuras que são contadores de histórias, genealogistas, mediadores políticos, comunicadores, cantadores e poetas populares. Os griots têm diversas formas de expressão, mas em comum são responsáveis pela biblioteca viva da tradição oral, são o sangue que circula as memórias e histórias, lutas e glórias daqueles povos. Há 7 anos, venho escrevendo a pedagogia griô e para fazer a transferência dos valores, adaptei a palavra griot do francês para Griô em português brasileiro, com uso tanto para o feminino quanto para o masculino. Mas é bom lembrar que os griôs têm nomes diversos em cada língua do norte e noroeste africano – na língua Bamanan, por exemplo, eles nomearam o personagem de Dieli.

B.D.C. – A tradição griô ainda tem força na África?

Márcio Caíres – Atualmente, em Bamako, capital do Mali, os griôs estão organizados em grandes associações de comunicadores sociais e, inclusive, realizam eventos e campanhas em torno de questões da mulher, drogas e DSTs, entre outras questões sociais. Existem famílias tradicionais, de onde vem a tradição griô no Mali, em que os griôs casam entre si até hoje. O Márcio esteve na casa de uma família no Mali que explica a origem da palavra griô a partir da história vivida por um de seus ancestrais que conheceu o rei Sumanguru Kante e o encantou com a magia de seu Balafon (instrumento produzido com cabaças).

B.D.C. – Como é a aceitação de uma palavra de origem francesa para designar uma tradição africana?

L.P. – Algumas pessoas questionam o fato de termos usado uma palavra francesa e não uma palavra de origem africana. Contudo, griot é um vocábulo conhecido internacionalmente que se refere a figuras da tradição oral do noroeste da África que têm posições sociais e nomes diversos, desde os mais sagrados aos mais brincalhões. Por isso é coerente para as expressões da tradição oral brasileiras.

B.D.C. – Como teve início o projeto Grãos de Luz e Griô?

M.C. – A oficina Grãos de Luz foi criada há mais de12 anos, pela iniciativa de mulheres de um bairro periférico de Lençóis. Elas se uniram para preparar sopa para as crianças da comunidade e descobriram que também poderiam realizar oficinas de arte e artesanato. Quando chegamos em 1997, fomos convidados a criar um sistema de avaliação, assumir o lugar de educadores, desenvolver projetos e articular parceiros, além de criar o projeto pedagógico das oficinas. É deste projeto pedagógico e de nossa angústia em aprender a aprender com a tradição oral de nossa comunidade para ensiná-las por meio da educação formal que criamos o Velho Griô. Trata-se de um caminhante alegre, afetivo e encantador que entrega a sua corporeidade vivida para ser o registro, a memória viva da rede de transmissão oral no Brasil. Nesta caminhada, criamos a pedagogia griô, sistematizando o projeto Griô de capacitação de educadores para integrar a tradição oral ao currículo de educação formal.

B.D.C. – Qual a metodologia utilizada pelo projeto?

L.P. – O processo de mobilização, articulação de rede, ensino e aprendizagem da Ação Griô Nacional é inspirado principalmente em práticas pedagógicas da tradição oral. A Ação Griô propõe a Pedagogia Griô para o fortalecimento da identidade dos estudantes brasileiros, facilitando o encanto, o sentimento de pertencimento, a ressignificação da história e do sentido da vida por meio da prática de caminhadas, cortejos, vivências, espaços de criação coletiva, ofícios artesanais, aulas-espetáculos, círculos de cultura, encontros temáticos, rodas das idades, rodas de prosa, danças do trabalho, danças de celebração, bênçãos e contação de histórias de vida, mitos e causos.

B.D.C. – E quais são as referências teóricas e metodológicas dessa pedagogia?

L.P. – A Pedagogia Griô usa como instrumental a educação biocêntrica de Ruth Cavalcante e Rolando Toro; a educação dialógica de Paulo Freire; a educação para as relações étnico-raciais positivas de Vanda Machado; e a arte-educação comunitária de Carlos Petrovich. Hoje, também incorporamos a metodologia relacionada ao corpo de Fátima Freire; e a pedagogia do teatro de rua do Instituto Tá na Rua e de seu Mestre Amir Haddar. A Pedagogia Griô integra a escola com a comunidade; educadores das escolas e universidades com griôs e mestres dos Pontos de Cultura; saberes das ciências e currículos formais do País com as histórias de vida, mitos e saberes da tradição oral de suas comunidades.

B.D.C – Quais os diferenciais do projeto?

M.C. – Os participantes do projeto têm sua identidade fortalecida e ressignificam o sentido de sua vida a partir de sua própria ancestralidade. O reconhecimento do lugar social político e econômico dos griôs e mestres de tradição oral é um tema que o projeto teve grande autoria para mobilização da sociedade brasileira. Outro diferencial é que o projeto tem uma equipe de gestão, educação e parceria formada por pessoas que convivem e celebram a vida numa rede de vínculos afetivos e políticos, identificando na missão do projeto a missão de suas vidas.

B.D.C. – Quantas crianças e adolescentes o projeto já contemplou?

L.P. – Em torno de 15 mil crianças, adolescentes e jovens, em 106 ONGs, prefeituras, escolas e universidades públicas do Brasil.

B.D.C. – Existem experiências semelhantes ao Griô em outros países?

M.C. – Já pesquisamos e não encontramos. Mas estamos iniciando um processo de intercâmbio de experiências com o Mali e Moçambique.

B.D.C. – O que é o Ação Griô? Quais são os seus princípios?

M.C. – A Ação Griô Nacional é uma ação integrada aos Pontos de Cultura e às ações Escola Viva e Agente Jovem do Programa Cultura Viva da Secretaria de Programas e Projetos Culturais (SPPC) do Ministério da Cultura. A Ação foi inspirada e concebida pela criatividade e inovação metodológica do Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô de Lençóis, que conquistou o primeiro lugar do Prêmio Itaú Unicef 2003, entre 1834 projetos, no tema Educação e Participação - Muitos Lugares para Aprender. A missão da Ação Griô é criar e instituir uma política nacional de educação, cultura oral e economia comunitária para o fortalecimento da identidade e ancestralidade de estudantes brasileiros, bem como a revisão dos currículos de suas escolas e universidades por meio do reconhecimento do lugar social, político e econômico de griôs e mestres de tradição oral do Brasil.

B.D.C – Como você avalia o currículo escolar em relação à história e cultura africanas?

L.P. – A cultura afrodescendente e a cultura oral em geral foram folclorizadas e espetacularizadas na educação formal. As pessoas que são a expressão viva dos saberes ancestrais desta cultura são consideradas analfabetas em sua maioria, ou vivem o preconceito racial em relação às suas crenças, cor e cultura. Os livros didáticos contam uma história, expressam uma estética e inspiram valores que colocam a cultura negra como a cultura de um povo “escravodescendente”. A cultura e o povo negro brasileiro é afrodescendente, não escravodescendente. Porque Milton Santos não está na escola, ou Cartola, ou Dolores Duran como afrodescendentes em vez de tantas imagens de negros no tronco? Por que os conhecimentos produzidos nas universidades africanas e na civilização egípcia não estão contados como cultura negra? Por que honramos datas com Coelhinhos da Páscoa e Papai Noel e não podemos entender a história de Xangô e do reino de Oyó (Nigéria, África) do povo nagô? Ou dos griôs do Mali?

B.D.C – É possível construir uma pedagogia e um currículo integrados ao conceito griô?

L.P. – É possível sim e 53 grupos e pontos de cultura do Brasil estão fazendo isso na Ação Griô Nacional, no dia-a-dia da escola. Não estamos escrevendo um currículo que será implantado e, sim, vivendo a criação dele no nosso cotidiano; invadindo, ocupando e surpreendendo as escolas com o encantamento, a beleza, os saberes, o movimento da vida das comunidades de tradição oral. Transformamos resistências em re-existências e vice-versa.

B.D.C. – Quais os próximos passos do projeto?

M.C. – Nosso grande passo atual é garantir a autonomia e sustentabilidade de redes regionais no Brasil. Temos parcerias fortes com o Museu da Pessoa, com o projeto Bagagem, com o MinC, e com 50 pontos de cultura no Brasil, 50 escolas e prefeituras que estão conquistando outros parceiros para garantir a rede. Outro grande passo é aprofundar as experiências da pedagogia griô na diversidade étnico-cultural brasileira, espaços urbanos e rurais, e experiências pedagógicas dos pontos de cultura.

B.D.C – O que significa ser selecionado pela Votorantim?

L.P. – Significa antes de tudo dar uma oportunidade a uma empresa de contribuir com uma temática social prioritária no Brasil, participando do processo de reparação e cura de nossa história e ancestralidade. Acreditamos que as pessoas da Votorantim que participarão desta parceria, como todos os demais parceiros, terão suas histórias de vida ressignificadas para re-conhecer a si mesmos e ao Brasil. Poderão compreender melhor sua própria necessidade afetiva, vivencial, social e política diante de nossa missão e dos nossos compromissos com o terceiro milênio.

M.C. – Por outro lado, seremos questionados em relação às semelhanças e contradições (de missões e compromissos) entre nós e a Votorantim. Em segundo lugar a parceria com a Votorantim significa um salto qualitativo em nossa estrutura institucional e financeira. Entendemos que ao sermos aprovados estamos assumindo novas e mais altas responsabilidades sociais e poderes de construção e desconstrução de nossa história. Em terceiro lugar, sabemos que estaremos num espaço muito mais articulado e visível na mídia, o que aumenta a necessidade de verticalizar os princípios, valores e conceitos em geral da ação política e da pedagogia que estamos construindo vivencialmente.

Priscila Fernandes/Boletim da Democratização Cultural

 

 
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13 Respostas para “Lilian Pacheco – Griô: um novo ângulo para a tradição”

  1. Silvana M. Fialho disse:

    Olá, hoje faço parte do ponto de cultura casa da juventude de Congonhas MG e dentro deste espaço trabalho diretamente con os griôs locais é uma esperiência maravilhosa, acompanho-os, faço relatos, as filmagens e ajuo nas agendas dos mesmos, estou amando est trabalho e espero que dure bastante pois como sou funcionária pública estamos sujeitos ao remanejo a qualquer instante, mas fora isto vou aproveitar ao máximo esta oportunidade, pois sou mãe e avó e espero aprender para utilizar cada vez mais na educação dos meus. Um abraço e espero contatos.

  2. auguém disse:

    esse negósio é podre

  3. Maria da Luz disse:

    Estava pesquisando para minha monografia. Entrei nos sites e encontrei o seu. Que legal!. Encontrei um artigo seu sobre o Griô. Estava pesquisando exatamente algo sobre o gênero. Muito obrigada! Olha, eu sempre gostei da cultura popular. Quando eu terminar esta bendita monografia vou estudar um pouco mais sobre isto.

    Aqui está o meu e-mail. pode me mandar mensagem se poder.
    dama_damires@hotmail.com

  4. Silvana e Maria,

    Estamos na caminhada agora por um milhão de assinaturas da lei griô nacional, entrem em nosso portal, baixem a minuta e busquem assinaturas a mão com título de eleitor. Contamos com vcs. Muito grata, Líllian

  5. Deyse Almeida de Oliveira disse:

    Oi, Lilian.
    Estou pesquisando sobre o tema e lendo o seu livro tb juntamente com mais 4 livros de abordagens distintas para começar o fichamento que antecede a minha monografia sobre o tema:Pedagogia Griô.
    Estou pensando qual será o foco da monografia, o problema a ser investigado.
    Aceito sugestões e artigos sobre o assunto se vc tiver.
    Eu assisti um seminário sobre o tema em Nova Iguaçu-RJ, em 2008, na Estácio de Sá, e me encantei pelo assunto.
    se vc puder me enviar algum material por e-mail, agradeço.
    Meu e-mail é: deyserock@yahoo.com.br
    Abraços fraternos para vc e o Chico Simões.
    Professora:Deyse.

  6. Blog Acesso disse:

    Olá, Deyse. Sugerimos que você entre em contato com a Lilian Pacheco através do site dela: http://www.graosdeluzegrio.org.br
    Atenciosamente,
    Equipe Acesso

  7. Olá, Lilian! Sou professora de Língua Portuguesa/Literatura E Pedagoga pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUCRJ). Também faço parte da equipe pedagógica da Coordenadoria Regional do Médio Paraíba II (abrangendo 52 unidades escolares dos municípios de Volta Redonda, Barra Mansa e Rio Claro).
    Ainda pela SEEDUC, represento em minha região o Comitê Estadual Etnicorracial.
    Nesse momento estou implementando um curso de formação continuada sobre as Orientações para a Educação das Relações Etnicorraciais.
    Este grupo de estudos conta com 30 educadores de diversas disciplinas (artes, língua portuguesa, história, geografia, ensino religioso, matemática, animação cultural, educação física).
    Nesse momento estou organizando meu PLANO DE AÇÃO para 2011.
    Gostaria de saber sobre a possibilidade de receber o PROJETO GRÃOS DE LUZ E GRIOT em nossa região para momentos de estudos sobre a PEDAGOGIA GRIOT.
    Se for possível, poderia ser em formato workshop?
    Grata!

  8. Blog Acesso disse:

    Olá, Marluci. Sugerimos que você entre em contato direto com a Lilian Pacheco através do site dela: http://www.graosdeluzegrio.org.br
    Atenciosamente,
    Equipe Acesso

  9. Ana Paula disse:

    Olá, ouvi falar sobre essa Pedagogia no programa Sala de professores da TV Escola, fiquei interessada e procurei o site. Como posso fazer pra trabalhar assim? Moro no interior do Maranhão e me inquieto com a desmotivação dos jovens, a falta de ações educativas que os motivem e o descaso com a nossa cultura, em nossas escolas nem sequer se falam em história e literatura afro-brasileira. Por favor entrem em contato.
    Obrigada
    Ana Paula

  10. [...] junto com Márcio Caíres em comunidades e ONGs que acabaram por se tornar Pontos de Cultura na gestão do Ministro Gilberto Gil, Líllian percebeu [...]

  11. Luciana Souza disse:

    Olá,
    Sou professora da área de prática de ensino do curso de licenciatura em geografia do campus V- Uneb e gostaria de realizar uma atividade de campo com os alunos a fim de conhecer a experiência do projeto Grãos de Luz e Griô. Como podemos viabilizar a visita?Existe a possibilidade de agendamento? ainda não temos data prevista pq preferimos ficar condicionados ao contato prévio de vcs.
    grata,
    Luciana Souza

  12. Olá, sou poeta coquista da cidade de Tracunhaém Zona da Mata Pernambucana e já dou oficinas de coco de roda. Gostaria de me informar mais sobre o mestre Griô e teria o maior prazer em participar desse movimento que já me considero-me dele. Isso é minha vida. Ano que vem farei 10 anos que canto coco e pretendo fazer isso pelo resto de minha vida. Grato; Man de Baé

  13. Blog Acesso disse:

    Caro Evilásio,

    Você poderá encontrar mais informações através do link http://www.blogacesso.com.br/?p=5209

    Qualquer dúvida ou comentário, estamos à disposição.

    Atenciosamente,

    Equipe blog Acesso

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